Sátiras fazem parte do mundo livre

Os cartunistas vivem de sátiras, mas acontece que os extremistas, os ditadores, os autocratas e todos os ideólogos do mundo não suportam o humor. E por isso, os cartunistas políticos vem há anos sofrendo com um possível fim de suas sátiras.
Publicado por em Vida dia

Os cartunistas vivem de sátiras, mas acontece que os extremistas, os ditadores, os autocratas e todos os ideólogos do mundo não suportam o humor. E por isso, os cartunistas políticos vem há anos sofrendo com um possível fim de suas sátiras.

“Mostrar os imperadores sem roupas é a tarefa da sátira, certo? “Falar a verdade ao poder”. Esse sempre foi o papel histórico da caricatura política.” Disse o cartunista editorial Patrick Chappatte, em uma palestra TED.

A censura dos Cartunistas

Na década de 1830, na França pós-revolucionária do rei Louis Philippe, jornalistas e caricaturistas lutaram muito pela liberdade de imprensa. Muitos foram presos e multados, mas no fim conseguiram triunfar. Para marcar esse tempo o cartunista Daumier fez uma caricatura do rei, descrevendo o monarca, e isso marcou a história, tornou-se o símbolo atemporal da sátira triunfando sobre a autocracia.

De lá para cá os cartunistas ainda vem tentando lutar por inclusão no mundo do humor. Mas muitas tentativas de acabar com a sátiras ainda vem acontecendo, em 2018, a cartunista Musa Kart foi condenado a três anos de prisão, simplesmente por fazer cartum político na Turquia de Erdoğan. Cartunistas da Venezuela, Rússia e Síria também têm sido forçados ao exílio.

Precisamos de humor como precisamos do ar que respiramos, diz o cartunista editorial Patrick Chappatte
Precisamos de humor como precisamos do ar que respiramos, diz o cartunista editorial Patrick Chappatte

Em 2012 outro cartunista, Hani Abbas publicou uma imagem que fez com que o regime da Síria fosse atrás dele e ele teve que fugir do país. Um bom amigo dele, o cartunista Akram Raslan, não conseguiu sair da Síria e morreu sob tortura. Nos Estados Unidos, recentemente, alguns dos principais cartunistas, como Nick Anderson e Rob Rogers, perderam o emprego porque os editores achavam os cartuns deles muito críticos ao presidente Donald Trump. E o mesmo aconteceu com o cartunista canadense Michael de Adder.

Diante de todo o antepassado, Patrick Chappatte se pergunta “Será que hoje, 200 anos depois de Daumier, cartuns políticos correm o risco de desaparecer?”

Cartuns políticos nasceram com democracia e são desafiados quando a liberdade é. E por isso todos os cartunistas começaram a se preocupar com o fim.

A ideia final

Ao longo dos anos, surgiram algumas iniciativas para ajudar os cartunistas, como a Fundação Cartooning for Peace, fundado pelo falecido Kofi Annan, Prêmio Nobel da Paz, ele era um grande defensor dos cartuns.

O conselho da Associação de Cartunistas Editoriais Americanos também surgiu para defender os cartunistas presos, ameaçados, demitidos e exilados.

A questão é que sátiras não trata-se só de opinião e jornalismo, mas sim de democracia. Shakespeare, há 400 anos descreveu exatamente as condições humanas da época entre altos e baixos dos cartunistas. Ele escreveu que: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido.”

Mas o mundo mudou um pouco, agora tem a ver com as redes sociais, esta é a era da imagem, que são compartilhadas, se tornam virais, mas também se tornam um alvo principal, e por isso podem se tanto uma bênção como uma maldição para os cartuns. Só que na verdade, o verdadeiro alvo por trás do cartum é a mídia que o publicou.

Capa do Charlie Hebdo após o massacre de 7 de janeiro
Capa do Charlie Hebdo após o massacre de 7 de janeiro

“A mídia não deve ser intimidada pelas redes sociais e os editores deveriam parar de ter medo da multidão enfurecida. Não vamos colocar avisos como fazemos em maços de cigarro, não é? [SÁTIRA PODE FERIR SEUS SENTIMENTOS]. Cartuns políticos são feitos para provocar, assim como opiniões.” Relatou o cartunista Patrick Chappatte.

Para completar Patrick Chappatte, defende que a ideia que os cartunistas não devem se tornarem os próprios censores em nome do politicamente correto. E que para mudar essa história, devem se posicionar e continuar com os cartuns políticos mais do que nunca, pois precisam de humor tanto quanto o ar que respiram.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.