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Assentamentos capixabas tem produção de leite como alternativa de renda

As áreas de reforma agrária no sul do Espírito Santo tornaram-se espaço interessante para a produção de leite. A exploração da cadeia tornou-se fonte alternativa à renda do café - principal atividade econômica capixaba. Três famílias de assentamentos distintos mostram a força do leite por sua capacidade de gerar renda.
Publicado em Rural dia 6/01/2023 por Alan Corrêa

As áreas de reforma agrária no sul do Espírito Santo tornaram-se espaço interessante para a produção de leite. A exploração da cadeia tornou-se fonte alternativa à renda do café – principal atividade econômica capixaba. Três famílias de assentamentos distintos mostram a força do leite por sua capacidade de gerar renda.

Segundo o superintendente regional do Incra, Fabrício Fardin, a atividade leiteira eleva a capacidade produtiva dos assentamentos e o amadurecimento das famílias que escolheram a cadeia por apresentar uma série de possibilidades na gestão do lote. “As famílias que trabalham com a pecuária de leite podem agregar valor ao produto ao elaborarem queijos e derivados, utilizar seus subprodutos para alimentar os animais, além da renda obtida, por exemplo, com a comercialização dos bezerros, que pode ser revertida a melhorias em outras áreas de produção”, afirma.

Família Trevizani

Odair Trevizani do assentamento Travessia

Odair José (48 anos) e Solange Aparecida (44 anos) alcançaram bons resultados com a produção de café, leite e milho no assentamento Travessia. No lote da família Trevizani, três gerações residem juntas e duas delas buscam dias melhores: pai, mãe, filhos e nora integram a força de trabalho, fazendo diferença quando o tema é a produtividade obtida na propriedade.

A história da família iniciou em 2003, ano de criação no assentamento, localizado no município de Nova Venécia, com a aquisição de três vacas com recursos próprios. Em 2006, Odair Trevizani acessou o Pronaf A e comprou outras seis vacas, no valor de R$ 16 mil, cujo empréstimo foi quitado em 2012. No ano seguinte, acessou financiamento do Pronaf Mais Alimentos para novos investimentos no lote, no valor de R$ 42 mil, quitado em 2020. A liberação do Fomento Mulher (R$ 5 mil), também em 2020, contribuiu com a potencialização produtiva da parcela. Hoje o plantel possui 28 vacas, das quais 16 em lactação, dois touros e 30 bezerros. Somente em 2021, a comercialização de 25 bezerros rendeu cerca de R$ 38 mil. E, em agosto deste ano, os mais de 4,8 mil litros de leite entregues a um laticínio da região gerou renda de quase R$ 17 mil.

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Em maio de 2022, a família investiu mais de R$ 100 mil na reforma da cultura de café, com aquisição de 15 mil novas mudas e sistema de energia e irrigação, além de uma máquina forrageira nova. A ordenhadeira, no valor de R$ 12 mil, foi adquirida a partir de recursos obtidos com a venda de bezerros. Já os dois hectares de milho fornecem silagem aos animais por um bom período, resultando em economia de R$ 30 mil com suplementação alimentar.

A produção do lote melhorou a qualidade de vida da família Trevizani. Eles possuem hoje uma boa casa, construída e reformada com recursos disponibilizados pelo Incra, respectivamente, em 2004 (R$ 5 mil) e em 2011 (R$ 8 mil). Recentemente fizeram nova reforma com recursos próprios. Além disso, construíram casas para os pais dele e para o casal José Pedro e Naira Denone Boa Trevizani, filho e nora de Odair José e Solange Aparecida. No pátio ainda estão estacionados quatro veículos de uso familiar: duas motos, um carro de passeio e uma caminhonete.

Produção diversificada

Joaquim Silva do assentamento Novo Sonho

Localizado no município de Ecoporanga, o assentamento Novo Sonho foi criado em 2012, com capacidade para 40 famílias, distribuídas em uma área de 745,7 hectares. Entre os beneficiários da área de reforma agrária está o casal Leidimar Gonçalves Barbosa (50 anos) e Joaquim Antônio da Silva (40 anos). Eles chegaram na fundação do projeto e aos poucos acrescentaram diversos itens ao rol de produção, como mandioca, utilizada para consumo da família e dos animais (porcos e galinhas), ou do feijão irrigado, cujo excedente gera aproximadamente de R$ 800,00 anualmente.

Segundo Antônio, a principal fonte de renda na propriedade é a atividade leiteira. A primeira vaca chegou no sítio a partir de doação de um parente no exterior. Com o tempo o plantel foi aumentado e hoje são 17 animais: sete vacas, duas novilhas e oito bezerros. O acréscimo ocorreu muito em função dos créditos acessados, caso do Fomento em 2018 (R$ 6,4 mil) e do Fomento Mulher em 2022 (R$ 5 mil). Da mesma forma, a dinâmica de trabalho mudou com o passar dos anos: se antes a produção diária era acondicionada em um resfriador localizado fora do assentamento, hoje é feita no resfriador instalado no local. Embora poucas vacas estejam em período de lactação atualmente, o casal obtém com a atividade uma renda mensal líquida de cerca de R$ 900,00.

A renda é completada com a comercialização de ovos das galinhas (cerca de R$ 100 por mês) e de leitões criados no sítio. Em 2021, os 20 leitões vendidos geraram cerca de R$ 2,5 mil. De acordo com Antônio, os planos para os próximos anos incluem o aumento da pastagem, com o objetivo de potencializar a forragem oferecida aos animais, e a aquisição de uma máquina de silagem.

Café, leite e pimenta

José Silva e Fátima Alves do assentamento Boa Vista

Também em Ecoporanga, no assentamento Boa Vista – criado em 2004 – algumas famílias conciliam as cadeias do café e do leite. José Ivaninho Almeida da Silva e Fátima Aparecida Vieira da Silva Alves optaram por trabalhar as duas atividades produtivas e se sentem confortáveis em dividir as tarefas do lote – sobretudo pelo protagonismo feminino na condução do gado de leite. Beneficiários da reforma agrária desde 2005, já percorreram uma longa caminhada até receberem o Título de Domínio em setembro de 2022, fato que deixou o casal satisfeito pela conquista. Para Fátima, com o título eles não desejam ir embora do assentamento, pois por conta do trabalho, estão trazendo os pais e construindo uma casa para eles, comenta.

Em 2010, iniciaram a atividade com gado de leite ao adquirirem as primeiras vacas. Na mesma época, a partir do acesso ao financiamento do Pronaf A, no valor de R$ 19.750,00, plantaram 3.475 pés de café na parcela. Em 2012, acessaram crédito do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), via Pronaf Mais Alimentos, no valor de R$ 45 mil, e investiram no sistema de irrigação do pasto, em seis novas vacas e no plantio de 4,7 mil pés de café. Hoje já são nove vacas e um touro, fornecendo em média 95 litros/dia a um laticínio da região. Em agosto deste ano foram entregues quase 2,7 mil litros de leite e uma renda de mais de R$ 8,4 mil.

Em relação ao café, atualmente são cerca de seis mil pés, com uma safra de 80 sacas do produto pilado (beneficiado) em 2022, estocada à espera de melhor preço (na cotação atual, caso fosse comercializada, corresponderia a R$ 58,4 mil). Além disso, outras fontes de renda também estão sendo inseridas pensando no futuro da família: caso do plantio de 1,1 mil covas de pimenta-do-reino (ocorrido em agosto de 2021 e que começa a dar frutos, com planos para cultivar outras 2 mil mudas) e da apicultura, com seis caixas de abelhas, que só este ano rendeu cerca de R$ 1.250,00.

*Com informações do Incra.