Trump impõe tarifa de 50% sobre produtos brasileiros em carta polêmica que cita Bolsonaro e STF

Em uma virada histórica, Donald Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, justificando a medida como resposta ao “tratamento injusto” de Jair Bolsonaro e críticas ao STF. A decisão afeta exportações de setores estratégicos como aviação, carnes e sucos, aprofundando a tensão comercial com os EUA. Lula estuda retaliações enquanto analistas alertam para riscos à indústria e empregos.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 10/07/2025

O impacto das novas tarifas americanas sobre as exportações brasileiras ganhou dimensão nesta semana, após a divulgação de uma carta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No documento, Trump comunicou que todas as exportações brasileiras passarão a ser taxadas em 50% a partir de 1º de agosto de 2025, em um movimento que combina motivações comerciais e políticas. A medida amplia em cinco vezes a tarifa que já vinha sendo aplicada desde abril, de 10%, e coloca sob pressão setores estratégicos da indústria brasileira.

Pontos Principais:

  • Trump anunciou tarifa de 50% sobre exportações brasileiras a partir de 1º de agosto de 2025.
  • Medida combina justificativas comerciais e políticas, citando julgamento de Jair Bolsonaro.
  • Setores mais afetados incluem aviação, carnes, sucos, aço, alumínio e insumos industriais.
  • Governo brasileiro estuda retaliações enquanto analistas alertam para riscos à indústria e empregos.

A decisão ocorre em um momento em que o Brasil registrava recordes de exportações para os Estados Unidos, com US$ 16,7 bilhões vendidos entre janeiro e maio, segundo a Amcham Brasil. As vendas brasileiras para o mercado americano vêm sendo puxadas por aeronaves, carnes, sucos, café, aço, alumínio e outros produtos industrializados. Agora, as associações empresariais alertam que as tarifas podem comprometer receitas, empregos e margens da indústria nacional.

A carta também aponta razões políticas, citando diretamente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal como justificativa para a imposição das tarifas. Para o governo brasileiro, a medida é vista como injustificada do ponto de vista econômico e uma escalada sem precedentes nas relações bilaterais. O Itamaraty convocou representantes dos EUA para explicações e estuda medidas de resposta, sem descartar retaliações.

Motivos apresentados pelos Estados Unidos

Na carta endereçada a Lula, Trump declarou que as tarifas visam corrigir um “tratamento injusto” dado a Jair Bolsonaro, afirmando que o julgamento do ex-presidente é uma “caça às bruxas”. Além disso, o presidente americano criticou o Supremo Tribunal Federal por supostamente impor ordens de censura a plataformas de redes sociais americanas no Brasil, gerando o que ele classificou como ataques à liberdade de expressão.

O documento também mencionou déficits comerciais dos EUA com o Brasil como fator para a decisão, ainda que dados oficiais mostrem superávit americano. Trump defendeu que a relação comercial é assimétrica e que os Estados Unidos precisam de um “campo de jogo nivelado”. Por isso, anunciou a aplicação da tarifa adicional de 50%, com possibilidade de aumentá-la ainda mais caso o Brasil retalie.

Outro ponto incluído foi a oferta para empresas brasileiras produzirem dentro dos Estados Unidos, o que as isentaria das tarifas, segundo a carta. O governo americano também instruiu o representante de Comércio dos EUA a abrir uma investigação formal sobre as práticas comerciais brasileiras com base na Seção 301, instrumento jurídico já usado em disputas com a China.

Setores brasileiros mais expostos às tarifas

Os setores com maior dependência do mercado americano são os mais vulneráveis aos impactos imediatos das novas tarifas. Dados da Amcham e da Confederação Nacional da Indústria indicam que 79% das exportações para os EUA são compostas por produtos industrializados, com destaque para segmentos como aeronáutico, alimentos processados, químicos, aço e alumínio.

  • Aeronáutico: A Embraer concentra cerca de 60% de suas vendas nos Estados Unidos. Estimativas do BTG Pactual apontam perdas potenciais de bilhões para a companhia com a nova tarifa. Analistas projetam que a empresa terá que escolher entre repassar custos aos clientes ou absorver parte do impacto, afetando margens de lucro.
  • Alimentos: Carne bovina, café e sucos de frutas foram os produtos com maior crescimento em exportações neste ano e podem sofrer quedas de competitividade frente a concorrentes como Canadá e México.
  • Insumos produtivos: Produtos como aço, alumínio, químicos e componentes industriais já vinham enfrentando tarifas setoriais e agora podem ter uma retração mais acentuada.

Especialistas também apontam riscos indiretos para segmentos menores que dependem de insumos exportados para os EUA e para empregos ligados à cadeia produtiva. Segundo a CNI, cada bilhão de reais exportado aos EUA gera mais de 24 mil empregos diretos no Brasil.

Reações do governo brasileiro e de entidades

O governo brasileiro reagiu oficialmente classificando a medida americana como injustificada e incompatível com os fluxos comerciais entre os dois países. O Itamaraty convocou o encarregado de negócios da embaixada dos EUA para prestar esclarecimentos e Lula reuniu ministros para avaliar as opções de resposta.

A Confederação Nacional da Indústria emitiu nota defendendo que Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação estratégica e mutuamente benéfica há mais de 200 anos. A entidade lembrou que os EUA são o terceiro principal parceiro comercial do Brasil e o maior destino das exportações da indústria de transformação nacional.

As associações empresariais manifestaram preocupação com o impacto nas cadeias produtivas. Para a Embraer, analistas consideram que a dependência americana não poderá ser suprida por Boeing ou Airbus no curto prazo, o que pode dar margem para renegociações. Já setores como carne bovina e sucos enfrentam concorrência mais imediata e podem perder participação.

Riscos para a economia e o comércio bilateral

Os Estados Unidos anunciaram nova tarifa de 50% para todos os produtos brasileiros exportados ao país a partir de 1º de agosto, segundo carta enviada por Donald Trump a Lula. - Foto: 
Alan Santos /PR
Os Estados Unidos anunciaram nova tarifa de 50% para todos os produtos brasileiros exportados ao país a partir de 1º de agosto, segundo carta enviada por Donald Trump a Lula. – Foto:Alan Santos /PR

Economistas alertam para a possibilidade de uma escalada tarifária evoluir para uma guerra comercial entre os dois países. A dependência de insumos exportados e importados entre as duas economias torna difícil para as empresas reorganizarem suas cadeias produtivas rapidamente, aumentando os custos para consumidores e indústrias em ambos os lados.

A Amcham Brasil destacou que, mesmo com as tarifas anteriores de 10%, os fluxos de comércio entre os países continuaram a crescer nos primeiros cinco meses do ano, atingindo recordes históricos. Contudo, com uma alíquota de 50%, há expectativa de retração no segundo semestre.

Internacionalmente, a decisão de Trump foi criticada pela União Europeia e por especialistas em comércio por violar regras multilaterais. A Organização Mundial do Comércio, no entanto, está fragilizada para atuar em disputas dessa natureza atualmente, o que limita as alternativas legais do Brasil para contestar a decisão.

Perspectivas para os próximos meses

Para os próximos meses, a prioridade do governo brasileiro será tentar manter o diálogo aberto com Washington para evitar um agravamento da crise. Há possibilidade de negociações pontuais para proteger setores mais estratégicos ou para limitar danos aos empregos.

O cenário eleitoral nos EUA também é um fator a ser monitorado. Analistas avaliam que as tarifas têm um componente de política interna, com Trump buscando reforçar sua base ao se mostrar combativo frente ao Brasil e em defesa de Bolsonaro.

No Brasil, entidades industriais pressionam para que a resposta seja calibrada para não fechar canais de comércio e investimento, mantendo a resiliência do setor produtivo diante das incertezas externas. As negociações diplomáticas seguem em andamento e as próximas semanas serão decisivas para definir a estratégia brasileira.

Fonte: Bbc, Metropoles, UOL, CNN e Poder360.