O impacto das novas tarifas americanas sobre as exportações brasileiras ganhou dimensão nesta semana, após a divulgação de uma carta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No documento, Trump comunicou que todas as exportações brasileiras passarão a ser taxadas em 50% a partir de 1º de agosto de 2025, em um movimento que combina motivações comerciais e políticas. A medida amplia em cinco vezes a tarifa que já vinha sendo aplicada desde abril, de 10%, e coloca sob pressão setores estratégicos da indústria brasileira.
Pontos Principais:
A decisão ocorre em um momento em que o Brasil registrava recordes de exportações para os Estados Unidos, com US$ 16,7 bilhões vendidos entre janeiro e maio, segundo a Amcham Brasil. As vendas brasileiras para o mercado americano vêm sendo puxadas por aeronaves, carnes, sucos, café, aço, alumínio e outros produtos industrializados. Agora, as associações empresariais alertam que as tarifas podem comprometer receitas, empregos e margens da indústria nacional.
A carta também aponta razões políticas, citando diretamente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal como justificativa para a imposição das tarifas. Para o governo brasileiro, a medida é vista como injustificada do ponto de vista econômico e uma escalada sem precedentes nas relações bilaterais. O Itamaraty convocou representantes dos EUA para explicações e estuda medidas de resposta, sem descartar retaliações.
Na carta endereçada a Lula, Trump declarou que as tarifas visam corrigir um “tratamento injusto” dado a Jair Bolsonaro, afirmando que o julgamento do ex-presidente é uma “caça às bruxas”. Além disso, o presidente americano criticou o Supremo Tribunal Federal por supostamente impor ordens de censura a plataformas de redes sociais americanas no Brasil, gerando o que ele classificou como ataques à liberdade de expressão.
O documento também mencionou déficits comerciais dos EUA com o Brasil como fator para a decisão, ainda que dados oficiais mostrem superávit americano. Trump defendeu que a relação comercial é assimétrica e que os Estados Unidos precisam de um “campo de jogo nivelado”. Por isso, anunciou a aplicação da tarifa adicional de 50%, com possibilidade de aumentá-la ainda mais caso o Brasil retalie.
Outro ponto incluído foi a oferta para empresas brasileiras produzirem dentro dos Estados Unidos, o que as isentaria das tarifas, segundo a carta. O governo americano também instruiu o representante de Comércio dos EUA a abrir uma investigação formal sobre as práticas comerciais brasileiras com base na Seção 301, instrumento jurídico já usado em disputas com a China.
Os setores com maior dependência do mercado americano são os mais vulneráveis aos impactos imediatos das novas tarifas. Dados da Amcham e da Confederação Nacional da Indústria indicam que 79% das exportações para os EUA são compostas por produtos industrializados, com destaque para segmentos como aeronáutico, alimentos processados, químicos, aço e alumínio.
Especialistas também apontam riscos indiretos para segmentos menores que dependem de insumos exportados para os EUA e para empregos ligados à cadeia produtiva. Segundo a CNI, cada bilhão de reais exportado aos EUA gera mais de 24 mil empregos diretos no Brasil.
O governo brasileiro reagiu oficialmente classificando a medida americana como injustificada e incompatível com os fluxos comerciais entre os dois países. O Itamaraty convocou o encarregado de negócios da embaixada dos EUA para prestar esclarecimentos e Lula reuniu ministros para avaliar as opções de resposta.
A Confederação Nacional da Indústria emitiu nota defendendo que Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação estratégica e mutuamente benéfica há mais de 200 anos. A entidade lembrou que os EUA são o terceiro principal parceiro comercial do Brasil e o maior destino das exportações da indústria de transformação nacional.
As associações empresariais manifestaram preocupação com o impacto nas cadeias produtivas. Para a Embraer, analistas consideram que a dependência americana não poderá ser suprida por Boeing ou Airbus no curto prazo, o que pode dar margem para renegociações. Já setores como carne bovina e sucos enfrentam concorrência mais imediata e podem perder participação.

Economistas alertam para a possibilidade de uma escalada tarifária evoluir para uma guerra comercial entre os dois países. A dependência de insumos exportados e importados entre as duas economias torna difícil para as empresas reorganizarem suas cadeias produtivas rapidamente, aumentando os custos para consumidores e indústrias em ambos os lados.
A Amcham Brasil destacou que, mesmo com as tarifas anteriores de 10%, os fluxos de comércio entre os países continuaram a crescer nos primeiros cinco meses do ano, atingindo recordes históricos. Contudo, com uma alíquota de 50%, há expectativa de retração no segundo semestre.
Internacionalmente, a decisão de Trump foi criticada pela União Europeia e por especialistas em comércio por violar regras multilaterais. A Organização Mundial do Comércio, no entanto, está fragilizada para atuar em disputas dessa natureza atualmente, o que limita as alternativas legais do Brasil para contestar a decisão.
Para os próximos meses, a prioridade do governo brasileiro será tentar manter o diálogo aberto com Washington para evitar um agravamento da crise. Há possibilidade de negociações pontuais para proteger setores mais estratégicos ou para limitar danos aos empregos.
O cenário eleitoral nos EUA também é um fator a ser monitorado. Analistas avaliam que as tarifas têm um componente de política interna, com Trump buscando reforçar sua base ao se mostrar combativo frente ao Brasil e em defesa de Bolsonaro.
No Brasil, entidades industriais pressionam para que a resposta seja calibrada para não fechar canais de comércio e investimento, mantendo a resiliência do setor produtivo diante das incertezas externas. As negociações diplomáticas seguem em andamento e as próximas semanas serão decisivas para definir a estratégia brasileira.
Fonte: Bbc, Metropoles, UOL, CNN e Poder360.