Donald Trump voltou a movimentar o tabuleiro do comércio internacional com uma decisão que colocou o setor audiovisual no centro de sua estratégia econômica. No último domingo, 4 de maio, o presidente dos Estados Unidos anunciou a implementação imediata de uma tarifa de 100% sobre todos os filmes produzidos fora do território norte-americano. A medida vale tanto para produções totalmente estrangeiras quanto para filmes de produtoras americanas rodados em outros países.
Pontos Principais:

A declaração foi feita por meio da Truth Social, plataforma usada com frequência por Trump para comunicar suas políticas. Segundo o presidente, a fuga de filmagens para fora dos Estados Unidos representa uma ameaça à segurança nacional e estaria prejudicando diretamente a indústria cinematográfica americana. O governo americano afirmou que a decisão visa reverter a redução da atividade em Hollywood e demais polos de produção.
Essa nova política tarifária surge em meio a um contexto de competição global por produções audiovisuais. Diversos países vêm oferecendo incentivos fiscais agressivos para atrair gravações, como Canadá, Reino Unido, Austrália e nações da Europa Central. As consequências da decisão já começaram a ser sentidas no mercado financeiro e nas avaliações de especialistas do setor.
A nova tarifa de 100% incide sobre filmes produzidos fora dos Estados Unidos e que são importados para distribuição no país. A abrangência inclui obras criadas integralmente por estúdios estrangeiros e também produções americanas gravadas em solo estrangeiro. O Departamento de Comércio e o Representante de Comércio dos EUA foram acionados para iniciar o processo de regulamentação e cobrança da tarifa.
Ainda não foi definido se a tarifa será aplicada com base nos custos de produção, nas receitas de bilheteria ou em outro critério. Também não está claro se a medida alcançará conteúdos exibidos exclusivamente por plataformas de streaming, como Netflix e Amazon Prime Video. A falta de precisão nos termos iniciais da política deixa estúdios, distribuidores e plataformas em estado de alerta.
Representantes da indústria cinematográfica ainda analisam as possíveis consequências práticas da medida. Até o momento, a Motion Picture Association não divulgou nota oficial. Há expectativa de que o setor pressione o governo por esclarecimentos técnicos, isenções e possíveis alternativas de adaptação.
A medida ocorre em um momento de desaceleração da atividade cinematográfica nos Estados Unidos. Dados da organização FilmLA indicam que a cidade de Los Angeles, tradicional centro de produção, registrou queda de quase 40% em filmagens nos últimos dez anos. O movimento de internacionalização das gravações tem sido motivado por pacotes de incentivos, reembolsos em dinheiro e facilidades logísticas oferecidas por outros países.
Segundo estimativa da Ampere Analysis, os investimentos globais em produção audiovisual devem ultrapassar US$ 248 bilhões em 2025. Já a consultoria ProdPro aponta que cerca de metade dos projetos com orçamento superior a US$ 40 milhões em 2023 foi realizada fora dos Estados Unidos. Esses números indicam uma tendência consolidada de descentralização da produção cinematográfica.
A reação de Trump vem como uma tentativa de conter esse processo. O presidente argumenta que, além dos impactos econômicos, há um risco simbólico e político no deslocamento das produções. Ele classifica esse movimento como parte de uma disputa narrativa internacional, sugerindo que os filmes têm papel relevante na construção da imagem dos Estados Unidos.
O anúncio gerou movimentações imediatas no mercado financeiro. Ações de empresas do setor de mídia e entretenimento apresentaram queda no pré-mercado nesta segunda-feira. A Netflix recuou 4,55%, a Lionsgate caiu 8,5%, enquanto a Warner Bros. Discovery teve desvalorização de 2,6%. Disney, AMC e IMAX também registraram perdas.
O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, se pronunciou por meio da rede X afirmando que o governo está conduzindo o processo de implementação da medida. Até o momento, não foram apresentadas projeções de arrecadação ou relatórios de impacto econômico detalhados.
Especialistas alertam que a nova política pode desencadear retaliações comerciais. William Reinsch, ex-dirigente do Departamento de Comércio e atual integrante do Center for Strategic and International Studies, afirmou que os Estados Unidos podem sofrer perdas significativas caso outros países decidam responder com tarifas sobre produtos culturais americanos.
O escopo completo da medida ainda está em construção. Além da indefinição sobre como a tarifa será calculada, há dúvidas sobre os mecanismos de fiscalização e as possíveis exceções. Filmes parcialmente rodados no exterior, coproduções internacionais e conteúdos produzidos por plataformas digitais entram na zona cinzenta da política.
A ausência de detalhes técnicos pode dificultar a aplicação imediata e gerar insegurança jurídica para estúdios e distribuidores. O governo sinalizou que novas regulamentações devem ser publicadas nos próximos dias para esclarecer os critérios.
Enquanto isso, empresas e organizações do setor analisam caminhos legais para contestar ou mitigar os efeitos da nova tarifa. O histórico recente de medidas protecionistas do governo Trump sugere que outras áreas da indústria do entretenimento e da cultura podem ser afetadas em ações futuras.