Nas últimas décadas, pesquisadores têm observado um fenômeno que impacta diretamente a nutrição global: a queda progressiva no teor de nutrientes dos alimentos naturais. Frutas, verduras, legumes e cereais que hoje chegam às prateleiras têm menos vitaminas e minerais do que as mesmas variedades colhidas há 50 ou 70 anos.
Pontos Principais:
Estudos científicos confirmaram que essa mudança ocorre em uma escala significativa e já afeta tanto a qualidade da dieta quanto a saúde populacional. O fenômeno não é visível a olho nu, já que o tamanho e a aparência dos alimentos muitas vezes melhoraram ao longo dos anos, mas as análises químicas revelam um empobrecimento gradual.
O resultado é uma cadeia alimentar menos rica para humanos e animais, com implicações para a saúde pública e para o sabor e a funcionalidade dos alimentos consumidos diariamente. Essa tendência vem sendo documentada em diferentes países e em culturas variadas, indicando que se trata de um problema global, relacionado a mudanças ambientais e agrícolas.
As evidências de queda nutricional dos alimentos começaram a ganhar destaque a partir de estudos comparativos entre décadas. Uma pesquisa de 2004, feita nos Estados Unidos, analisou 43 alimentos em dois períodos — 1950 e 1999 — e constatou reduções significativas em seis nutrientes, incluindo proteína e vitamina B2. Outras análises posteriores confirmaram quedas médias de 6% na proteína e até 38% na riboflavina.
O padrão também foi identificado no trigo, base da alimentação em muitos países. Entre 1955 e 2016, o teor de proteína do trigo diminuiu cerca de 25%, além de quedas nos índices de ferro, zinco, magnésio e manganês. Pesquisas mais recentes, como um estudo australiano de 2022, mostraram que alimentos como milho doce e ervilha verde perderam até metade do teor de ferro em décadas.
Além das consequências nutricionais, essas alterações impactam também o sabor dos alimentos. A redução de minerais e vitaminas compromete características organolépticas como aroma e paladar, tornando frutas e vegetais menos agradáveis.
Os fatores por trás dessa mudança são múltiplos e relacionados a práticas agrícolas modernas e mudanças ambientais. Um dos principais é o manejo intensivo do solo para maximizar a produtividade. O uso excessivo de fertilizantes químicos, especialmente a combinação de nitrogênio, fósforo e potássio, leva a um desequilíbrio no solo.
Esse desequilíbrio provoca a chamada inibição competitiva, em que o excesso de um nutriente impede a absorção de outros. Um solo com muito cálcio, por exemplo, pode bloquear magnésio. O aumento do pH causado pelo uso prolongado de fertilizantes reduz a disponibilidade de cobre e ferro para as plantas.
A pressa em produzir grandes volumes também interfere nas relações simbióticas entre plantas e fungos do solo. Esses fungos ajudam as raízes a absorver nutrientes, mas ciclos de cultivo acelerados comprometem essa interação.
Outro elemento fundamental é o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. As plantas utilizam CO₂ para fotossíntese, e em níveis mais altos crescem mais rápido, aumentando a quantidade de carboidratos.
No entanto, esse crescimento ocorre em detrimento da absorção de água e minerais, resultando em plantas maiores, porém menos nutritivas. Um estudo da revista Science identificou que, em arroz, concentrações mais altas de CO₂ reduziram teores de proteína, zinco, ferro e vitaminas.
Essa tendência já pode ser percebida em outras culturas e projeta um cenário preocupante para 2050, quando modelos climáticos indicam reduções adicionais na qualidade nutricional de cereais como trigo, arroz, batata e cevada.

A diminuição de nutrientes nos alimentos reflete diretamente na saúde pública. O ferro é essencial para o transporte de oxigênio no sangue, o cálcio fortalece ossos e dentes, a riboflavina atua no metabolismo de gorduras e a vitamina C apoia o sistema imunológico.
Uma dieta com menor teor desses componentes torna o organismo menos capaz de prevenir doenças e pode agravar deficiências nutricionais em populações já vulneráveis. O efeito também se estende às carnes, pois os animais de criação consomem plantas com menos nutrientes.
Pessoas que seguem dietas vegetarianas ou veganas podem ser ainda mais afetadas, dependendo de fontes vegetais para a maioria dos nutrientes. Estudos apontam que, mesmo mantendo padrões alimentares semelhantes aos de décadas atrás, os consumidores ingerem hoje menos micronutrientes do que gerações anteriores.
Especialistas apontam que reduzir as emissões globais de CO₂ é fundamental para atenuar a tendência de perda nutricional nos alimentos. Isso contribui para limitar os efeitos das mudanças climáticas sobre as culturas agrícolas.
No campo, práticas de agricultura regenerativa ganham espaço. Técnicas como a rotação de culturas, o uso de plantas de cobertura como trevo e ervilhaca e a redução da intensidade da produção permitem ao solo recuperar nutrientes e melhorar a qualidade das safras.
Outra medida é o descanso do solo entre cultivos, que ajuda a recompor o equilíbrio químico e microbiológico do ambiente agrícola. Essas estratégias já têm sido testadas em várias regiões com bons resultados em termos de produtividade e valor nutricional.
No dia a dia, consumidores têm pouco controle sobre o manejo agrícola, mas podem adotar hábitos que ajudam a mitigar os impactos. Uma recomendação central é aumentar a variedade na dieta.
Consumir frutas, legumes e vegetais variados aumenta a chance de obter os diferentes micronutrientes necessários, já que as deficiências não são uniformes entre todos os alimentos. Reduzir o consumo de ultraprocessados também contribui para uma alimentação mais equilibrada.
Alimentos ultraprocessados são produtos com alta adição de ingredientes industriais e baixo valor nutricional. Substituí-los por alimentos naturais e minimamente processados é uma forma prática de melhorar a ingestão de nutrientes.
Fonte: Nationalgeographicbrasil, Shortform, Bbc, Researchgate, Rodaleinstitute, Ihu, Journals e Amrigs.