Nos últimos anos, o efeito placebo tem ganhado espaço em debates sobre medicina, comportamento e psicologia. Longe de ser apenas uma curiosidade científica, esse fenômeno envolve reações reais provocadas por substâncias inativas, impulsionando pesquisas, polêmicas e até estratégias comerciais.
Pontos Principais:
O que começa como um comprimido de açúcar ou uma injeção de soro pode terminar com relatos clínicos de alívio da dor, melhora do humor e sensação de bem-estar. A explicação está na mente humana e em como ela influencia diretamente o corpo. Expectativas, crenças e até o formato de um medicamento podem desencadear respostas fisiológicas.
Esse tipo de resposta não se restringe ao ambiente clínico. Ele está presente em botões de elevador, em termostatos de escritório, em hábitos alimentares e até na forma como certas tecnologias são percebidas. O placebo ultrapassa o limite entre o físico e o simbólico, e entender seu funcionamento é essencial para avaliar práticas médicas, éticas e sociais.
O termo placebo vem do latim placere, que significa “agradar”. Inicialmente usado para descrever tratamentos sem efeito terapêutico real, ele passou a designar qualquer intervenção feita com objetivo simbólico ou psicológico.
No final do século XVIII, o médico John Hagart testou esse conceito ao utilizar varetas de madeira, idênticas às metálicas usadas por outros médicos, e observou que os pacientes relatavam o mesmo alívio das dores. A partir dessa experiência, surgia um conceito científico que, mais tarde, se tornaria base para experimentos clínicos mais robustos.
Já na década de 1940, a ciência adotou oficialmente o placebo como ferramenta de avaliação, em especial nos testes duplo-cegos. Nesse método, nem os pacientes nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o medicamento real e quem está recebendo um placebo. Essa abordagem foi usada, por exemplo, na avaliação do antibiótico patulina, que acabou descartado por não apresentar eficácia superior ao placebo.
Apesar de não conter princípio ativo, o placebo pode provocar efeitos fisiológicos reais. Isso acontece porque o simples ato de esperar por uma melhora ativa regiões do cérebro envolvidas na percepção da dor, como o córtex pré-frontal.
O cérebro, ao esperar um resultado positivo, libera substâncias analgésicas e reduz a percepção de dor. É o mesmo princípio por trás de sensações físicas provocadas por estados emocionais, como taquicardia em momentos de ansiedade ou relaxamento em situações de conforto.
Esse tipo de resposta varia de pessoa para pessoa. Algumas reagem mesmo sabendo que estão tomando um placebo. Outras só apresentam melhora quando acreditam estar recebendo um tratamento real. Estudos também indicam que fatores como cor, tamanho e valor do comprimido interferem na eficácia percebida pelo paciente.
O fenômeno do placebo ultrapassa os consultórios médicos. Em várias situações cotidianas, ações simbólicas geram sensação de controle ou conforto, mesmo quando não produzem nenhum efeito real.
Um exemplo são os botões de semáforo que, em muitas cidades, não estão conectados ao sistema, mas ainda são pressionados por pedestres na tentativa de acelerar a troca de sinal. O mesmo ocorre com os botões de fechar porta em elevadores, que, na maioria dos casos, não têm qualquer efeito.
Outros casos envolvem hábitos culturais, como beber café por acreditar que ele aumenta o foco. Um experimento comparou dois grupos: um tomou café de verdade, o outro ingeriu água com cafeína. Ambos apresentaram alterações cerebrais esperadas, mas só quem sabia que estava tomando café mostrou aumento na atividade de áreas ligadas à atenção. Isso indica que parte do efeito é psicológico.

A homeopatia é um dos tratamentos mais associados ao efeito placebo. Criada há mais de dois séculos, essa prática consiste em diluir substâncias ativas em níveis tão altos que, muitas vezes, não resta nenhuma molécula original no preparado final.
Críticos apontam que a homeopatia não oferece benefício além do placebo. Revisões sistemáticas, como a liderada pelo médico Edzard Ernst, concluíram que não há evidências de que os remédios homeopáticos sejam mais eficazes do que placebos comuns.
Em 2011, um protesto internacional buscou chamar atenção para isso. Às 10h23, em 70 cidades, centenas de pessoas tomaram “overdoses” de medicamentos homeopáticos sem sofrer qualquer efeito colateral. O horário fazia referência ao número de Avogadro (6,022 x 10²³), usado em química para indicar que, em determinadas diluições, não há mais moléculas da substância original.
Uma das descobertas mais surpreendentes recentes é a eficácia do placebo mesmo quando o paciente sabe que ele não tem efeito real. O chamado “placebo honesto” foi testado em pacientes com síndrome do intestino irritável. Aqueles que tomaram um placebo, avisados de que se tratava de uma substância inativa, apresentaram melhora maior do que os que não tomaram nada.
Há também o fenômeno conhecido como placebo por procuração, em que quem acredita no efeito não é o paciente, mas outra pessoa, como um cuidador. Isso foi observado em animais de estimação e em experimentos com camundongos. Quando os cuidadores acreditam na eficácia de um tratamento, os animais também podem apresentar melhora.
Esse tipo de efeito foi estudado em cães e camundongos por meio de condicionamento. Em um experimento, ratos que ingeriam um remédio junto com água doce continuaram apresentando resposta imunológica mesmo depois que só a água foi administrada.
O nocebo é o reverso do placebo. Nesse caso, a expectativa negativa gera efeitos prejudiciais à saúde, mesmo na ausência de agentes físicos. Quando uma pessoa acredita que um tratamento causará mal-estar, ela pode sentir dor, enjoo, tontura ou até agravar uma condição preexistente.
Durante a pandemia de COVID-19, muitos efeitos adversos relatados após a vacinação foram associados ao nocebo. Um estudo mostrou que dois terços das pessoas que sentiram reações como dor de cabeça ou cansaço foram influenciadas por fatores psicológicos.
Outros exemplos incluem reações exageradas à leitura de bulas, medo de procedimentos médicos e até agravamento de sintomas por pesquisas feitas na internet. Esses efeitos são reais, mesmo que não tenham origem física.
O efeito placebo, apesar de não curar doenças graves nem substituir tratamentos com comprovação científica, mostra a importância da mente nas respostas do corpo. A forma como pacientes interpretam o tratamento influencia diretamente a recuperação.
Já o nocebo destaca os riscos de uma comunicação negativa ou alarmista, que pode comprometer a eficácia de terapias. Ambos os fenômenos reforçam a necessidade de equilíbrio entre ciência, expectativa e ética médica.
Com o avanço das pesquisas, entender como funciona a interação entre mente e corpo se torna fundamental não só para a medicina, mas para áreas como psicologia, comportamento e saúde pública.
Fonte: Wikipedia, Bbc, Bbc, Unimedcampinas, Uol, Super, CNN, Wikipedia, Super, Canaltech e Jornal.