OVNIs e UAPs: como a ciência, a política e o sigilo moldaram o fenômeno nos últimos 80 anos

Nem tudo o que voa é identificado — e esse é o ponto de partida. Por décadas, governos, militares e cientistas tentaram entender os OVNIs, enquanto documentos se acumulavam entre sigilo, descrença e teorias improváveis. De Foo Fighters a comitês da NASA, passando por investigações que nunca chegaram ao público, o mistério continua alimentado pela falta de dados abertos e o medo de encarar o desconhecido com método e rigor.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Ciência dia 13/05/2025

O interesse por objetos voadores não identificados, os chamados OVNIs, atravessa décadas e gerações. Apesar da carga cultural, social e até política envolvida, os relatos de fenômenos aéreos não explicados continuam a se acumular. Pilotos, militares, cientistas e civis relataram ao longo dos anos observações que, em alguns casos, permanecem sem explicações técnicas ou científicas disponíveis.

Pontos Principais:

  • OVNIs são investigados desde os anos 1940, com casos como os Foo Fighters e o Incidente de Washington.
  • Projetos como SIGN, GRUDGE e Blue Book tentaram explicar os fenômenos com viés cético.
  • A NASA reconhece que cerca de 2% dos casos permanecem sem explicação técnica ou científica.
  • Estigma social, sigilo militar e ausência de sensores adequados dificultam investigações rigorosas.

O termo OVNI foi amplamente substituído em documentos oficiais por UAP (Unidentified Aerial Phenomena). A mudança linguística busca dissociar o tema do estigma popular construído ao longo do século XX. Ainda assim, a investigação desses fenômenos segue limitada por barreiras técnicas, políticas e sociais que restringem tanto o acesso a dados quanto o avanço de pesquisas.

Este artigo apresenta, com base em documentos históricos, investigações científicas e recentes iniciativas da NASA, uma cronologia dos esforços públicos e confidenciais para compreender esses objetos. A abordagem considera também a dualidade entre a postura pública e a conduta interna de governos frente aos relatos de OVNIs.

Primeiras observações e casos militares

Durante a Segunda Guerra Mundial, pilotos relataram luzes no céu que pareciam seguir aeronaves aliadas. Essas luzes receberam o nome de Foo Fighters e apareceram em vários pontos do planeta, inclusive em locais com pouca comunicação entre os exércitos envolvidos. A hipótese inicial era de que se tratavam de tecnologias desconhecidas de guerra. Porém, no pós-guerra, os relatórios mostraram que nem os Aliados nem os países do Eixo sabiam a origem dessas luzes.

Esses primeiros relatos foram o início de uma longa sequência de investigações. O ano de 1947 marcou um ponto de virada, com a primeira menção a “discos voadores” e o famoso Caso Roswell. A Força Aérea dos Estados Unidos iniciou investigações mais formais no ano seguinte, com a criação do Projeto SIGN. Inicialmente, houve disposição para considerar hipóteses amplas, incluindo a de origem extraterrestre.

O Projeto SIGN acabou sendo encerrado após recomendar mais estudos, sendo substituído pelo Projeto GRUDGE, que por sua vez deu origem ao Projeto Blue Book. Esses projetos passaram a priorizar explicações convencionais, mesmo quando não conseguiam justificar todos os casos. Os relatórios públicos, em sua maioria, tratavam o fenômeno como fruto de confusão, fenômenos atmosféricos ou alucinações.

Divisão interna e posicionamento oficial

Pilotos viram luzes no céu durante a guerra. Não era arma inimiga. Ninguém sabia o que era. Assim começaram os registros de OVNIs modernos - reprodução / canva
Pilotos viram luzes no céu durante a guerra. Não era arma inimiga. Ninguém sabia o que era. Assim começaram os registros de OVNIs modernos – reprodução / canva

O discurso público da Força Aérea e dos órgãos de inteligência dos EUA era o de que os OVNIs não apresentavam ameaça real. Internamente, no entanto, havia diferentes opiniões entre as agências. Algumas divisões acreditavam que os objetos não identificados poderiam ser tecnologias soviéticas, outras defendiam que se tratavam de novos projetos americanos não divulgados nem entre os próprios departamentos. Ainda havia grupos que mantinham aberta a hipótese de origem extraterrestre.

O episódio mais emblemático dessa tensão foi o Incidente de OVNIs de Washington, em 1952. Durante duas semanas, radares detectaram objetos se movendo de maneira anômala sobre a capital dos Estados Unidos, acompanhados de relatos visuais. A situação levou o presidente Truman a solicitar à CIA uma investigação formal. O resultado foi a criação de dois grupos: um público, que manteve a posição oficial da Força Aérea, e outro mais reservado, liderado por Marshall Shadwell.

Esse segundo grupo chegou a apontar que o tratamento dado pela Força Aérea era baseado em metodologia falha e conclusões antecipadas. As limitações técnicas e o medo de repercussões sociais dificultavam o avanço dos estudos. Ainda assim, os registros indicam que as investigações continuaram em paralelo, com grupos menores e independentes coletando informações confidenciais.

O estigma e o papel das conspirações

A estratégia oficial adotada nos anos 1950 contribuiu diretamente para a construção do estigma que cerca os OVNIs. Em coletivas de imprensa, porta-vozes ridicularizavam perguntas, e a mídia passou a associar o tema ao sensacionalismo. O resultado foi um afastamento da comunidade científica, que passou a evitar o tema para não comprometer sua reputação.

Com a ausência de explicações acessíveis e a falta de transparência, cresceram as teorias conspiratórias. Uma hipótese recorrente é a de que o governo dos EUA teria conhecimento de objetos ou tecnologias que não divulga publicamente. Também há relatos de que o próprio governo teria alimentado rumores sobre alienígenas como forma de despistar testes de armamentos secretos.

Esse cenário alimenta a percepção de que existe algo sendo ocultado. Relatos de figuras públicas como John Podesta, ex-chefe de gabinete da Casa Branca, fortalecem essa ideia. Podesta declarou que sua maior falha política foi não ter conseguido abrir o debate sobre OVNIs de forma mais ampla. Para muitos, sua postura reforça a suspeita de que o assunto permanece restrito a círculos específicos dentro do governo.

Estudos atuais e posicionamento da NASA

Em 2023, a NASA estabeleceu um Comitê de Estudos Independentes para UAPs. O relatório final concluiu que, embora a maioria dos casos tenha explicação natural, cerca de 2% permanece sem explicação. O comitê não apoia a hipótese alienígena, mas reconhece que os dados disponíveis são insuficientes para descartar possibilidades.

O relatório destaca três tipos de limitações: sociais, técnicas e burocráticas. Socialmente, o estigma ainda afasta cientistas e limita a coleta de relatos. Tecnicamente, os sensores disponíveis não são adequados para estudar OVNIs, já que não foram calibrados para isso. Burocraticamente, a maior parte dos dados vem de fontes militares e é mantida em sigilo, não por causa dos OVNIs em si, mas por conta dos equipamentos secretos que captam os dados.

A proposta da NASA é desenvolver sensores civis e baratos, com acesso público às informações. Isso permitiria a criação de uma base de dados confiável para diferenciar fenômenos comuns dos verdadeiramente não explicados. A metodologia seria semelhante à usada em experimentos de física de partículas, com sensores simples ativando sensores mais avançados em casos suspeitos.

Implicações futuras e considerações finais

Em 1947, a coisa ficou séria. Discos voadores, incidentes militares e o famoso Caso Roswell levaram os EUA a criar projetos secretos de investigação - reprodução / canva
Em 1947, a coisa ficou séria. Discos voadores, incidentes militares e o famoso Caso Roswell levaram os EUA a criar projetos secretos de investigação – reprodução / canva

A proposta de criar um sistema civil de monitoramento marca uma possível mudança no tratamento do tema. Pela primeira vez em décadas, existe a perspectiva de investigar fenômenos aéreos com rigor científico e transparência. Essa iniciativa pode quebrar o monopólio dos dados mantido por órgãos militares e estimular a participação da comunidade acadêmica.

No entanto, ainda há obstáculos. O estigma social continua presente e a confiança da população nas instituições que lidam com OVNIs segue baixa. A própria ausência de respostas definitivas, após tantos anos de relatos, alimenta o ceticismo e a desinformação.

A ciência busca respostas com base em dados. E, neste caso, os dados precisam ser gerados, abertos e analisados sem preconceitos. Se os OVNIs são fruto de erros de percepção, fenômenos atmosféricos, armamentos secretos ou visitas de outras inteligências, essa é uma resposta que só poderá ser obtida quando a pesquisa for tratada com o mesmo rigor destinado a outras áreas do conhecimento humano.

Fonte: Military, Archive e Wikipedia.