O mistério do Passo Dyatlov: a tragédia nos Urais que desafiou a ciência por décadas

Uma viagem ao coração congelado da União Soviética termina em tragédia: nove jovens morrem em circunstâncias brutais, com corpos mutilados e sem explicação. Por décadas, o mistério do Passo Dyatlov alimentou teorias sobre armas secretas, extraterrestres e fenômenos sobrenaturais. Somente 60 anos depois, uma reviravolta científica trouxe uma possível resposta — e ela envolve uma avalanche tão rara quanto devastadora.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Ciência dia 6/08/2025

Expedição no gelo

Em janeiro de 1959, dez jovens partiram em uma expedição pelos Montes Urais, na antiga União Soviética. O grupo, composto por oito homens e duas mulheres, era formado por estudantes do Instituto Politécnico dos Urais. A meta era alcançar o Monte Otorten, localizado em uma região remota e desabitada do norte soviético.

Pontos Principais:

  • Nove jovens morreram durante uma expedição nos Montes Urais em 1959.
  • Corpos foram encontrados com fraturas, sem roupas e com mutilações.
  • Teorias envolveram desde armas secretas soviéticas até fenômenos naturais.
  • Simulações feitas em 2019 indicaram que uma avalanche de placa foi a causa provável.

A liderança ficou sob responsabilidade de Igor Dyatlov, nome que mais tarde batizaria o local do incidente. Os integrantes registraram a viagem por meio de diários e fotografias, documentando os primeiros dias com otimismo. Um dos integrantes, Yuri Yudin, desistiu ainda no início devido a fortes dores no nervo ciático. Essa decisão acabou salvando sua vida.

O restante do grupo seguiu rumo ao destino, enfrentando temperaturas negativas, gelo e neve. As últimas anotações do diário datam de 31 de janeiro. Elas indicavam dificuldades causadas pelo clima, vento forte e queda de visibilidade. No dia seguinte, não há mais registros. O que aconteceu a partir de então permaneceu desconhecido por décadas.

O desaparecimento

O grupo deveria ter retornado à cidade de origem até o dia 12 de fevereiro. A ausência de contato inicialmente não gerou alarme, pois atrasos eram comuns em expedições por causa das condições climáticas. Com o passar dos dias, a preocupação aumentou entre familiares e colegas.

No dia 20 de fevereiro, uma equipe de buscas foi enviada à região. Após dias de procura, a barraca do grupo foi localizada parcialmente soterrada na neve. A estrutura apresentava cortes feitos de dentro para fora, indicando uma fuga repentina. Dentro da tenda, foram encontrados pares de botas, roupas e alimentos inacabados.

Pegadas descalças em direção à floresta reforçaram a hipótese de abandono emergencial. Dias depois, os primeiros corpos foram encontrados a cerca de um quilômetro da barraca. Outros corpos seriam localizados apenas semanas depois, já com o degelo. Alguns apresentavam fraturas internas, ausência de olhos e até mesmo a falta da língua.

Hipóteses e teorias

A morte dos jovens gerou inúmeras teorias ao longo das décadas. Segundo levantamento da BBC, pelo menos 75 hipóteses diferentes foram propostas. Entre elas, estão envolvimentos militares, armas químicas, testes da KGB, quedas de foguetes, ações do povo Mansi, ataques de animais e até presença de seres extraterrestres.

Alguns fatores reforçaram especulações. Nas roupas de algumas vítimas foram detectados níveis incomuns de radiação. A região era isolada e, na época, palco de diversos testes militares da União Soviética. Além disso, relatos sobre luzes no céu durante a noite da tragédia alimentaram explicações sobrenaturais.

Teorias envolvendo conflitos internos ou crimes passionais foram descartadas pelas autópsias. Os ferimentos registrados indicavam aplicação de força superior à humana. Ainda assim, nenhuma explicação era conclusiva o bastante para resolver o caso de forma definitiva.

Reabertura do caso

Um grupo de jovens partiu para uma expedição nos Montes Urais em 1959 e nunca mais voltou. Dias depois, corpos foram achados com sinais de violência e em condições incomuns.
Um grupo de jovens partiu para uma expedição nos Montes Urais em 1959 e nunca mais voltou. Dias depois, corpos foram achados com sinais de violência e em condições incomuns.

No ano de 2019, o governo russo decidiu reabrir oficialmente as investigações, após pressão pública e com o objetivo de dar uma resposta definitiva à tragédia. Cientistas suíços do Laboratório de Simulação de Neve da Escola Politécnica de Lausanne participaram da análise.

Eles propuseram a hipótese de uma avalanche de placa, fenômeno pouco conhecido até então. Esse tipo de avalanche ocorre quando camadas de neve instáveis se soltam de forma abrupta, após o acúmulo de neve nova sobre neve compacta. Uma pressão, como o peso da barraca, pode funcionar como gatilho para o deslizamento.

Simulações computacionais, apoiadas em dados meteorológicos da época e modelagens físicas, permitiram concluir que as condições eram compatíveis com esse tipo de avalanche. Ao contrário das avalanches tradicionais, a avalanche de placa pode ocorrer mesmo em áreas com inclinação inferior a 30 graus.

Resultados da simulação

Os cálculos revelaram que a inclinação exata da montanha era de 28 graus, e não 23, como se pensava anteriormente. A instalação da barraca teria desestabilizado a neve acumulada, provocando o deslocamento em massa de uma placa de neve compactada.

A força do impacto pode explicar as fraturas internas nos corpos, incluindo crânios e costelas quebradas. Além disso, a posição dos esquis e dos próprios corpos sob a neve teria contribuído para a gravidade dos ferimentos. As partes faltantes nos cadáveres, como olhos e língua, possivelmente foram removidas por animais após o óbito.

A ausência de vestígios visíveis de avalanche se deve ao tipo específico do evento e à cobertura de neve subsequente. Esse aspecto foi um dos motivos pelos quais a hipótese demorou décadas para ser considerada com seriedade.

Explicações complementares

As roupas removidas podem ser explicadas por um comportamento comum em vítimas de hipotermia, conhecido como despir paradoxal. Outra hipótese é que os sobreviventes retiraram peças de roupas dos colegas mortos na tentativa de se protegerem do frio.

Quanto à radiação, alguns dos jovens cursavam áreas ligadas à física nuclear, o que poderia justificar a presença dos elementos detectados. O relatório final da nova investigação não identificou sinais de interferência externa, agressões humanas ou ação militar no local.

A explicação natural passou a ser considerada a mais coerente com os registros, dados e evidências disponíveis. No entanto, nem todas as perguntas foram respondidas, e o caso ainda é lembrado como um dos mais complexos da história moderna.

Interesse contínuo

As autoridades encontraram a tenda rasgada de dentro para fora e pegadas descalças na neve. Alguns corpos tinham fraturas internas, outros estavam sem olhos ou até sem língua.
As autoridades encontraram a tenda rasgada de dentro para fora e pegadas descalças na neve. Alguns corpos tinham fraturas internas, outros estavam sem olhos ou até sem língua.

Mesmo com a nova explicação científica, o caso segue despertando interesse. Documentários, livros, podcasts e filmes continuam explorando a história dos nove jovens e o cenário isolado dos Montes Urais. A sobrevivência de Yuri Yudin, único que retornou antes do incidente, também segue sendo um ponto marcante da narrativa.

A investigação de 2019 foi conduzida com métodos atualizados e ferramentas digitais. O responsável pela simulação, Johan Gaume, afirmou que teve a ideia após assistir a um filme de animação e consultar especialistas em simulação de neve. O uso da tecnologia ajudou a recriar as condições físicas do acidente de forma inédita.

O episódio é um exemplo do cruzamento entre ciência, tecnologia e história. Ele mostra como avanços em áreas como modelagem computacional podem lançar novas luzes sobre eventos antigos.

Desdobramentos

A avalanche de placa passou a ser estudada com mais atenção por pesquisadores e profissionais de segurança em regiões montanhosas. O caso de Dyatlov impulsionou novas investigações sobre acidentes em áreas remotas e extremos climáticos.

A região onde ocorreu a tragédia foi renomeada como Passo Dyatlov em homenagem ao líder do grupo. Hoje, o local ainda é visitado por exploradores e turistas interessados em conhecer o terreno onde ocorreu o incidente.

Apesar do avanço nas explicações, o caso continua gerando debates. A narrativa envolve elementos históricos, geopolíticos e culturais, que contribuem para o seu apelo contínuo na mídia e no imaginário coletivo.

Considerações finais

Teorias sobre armas soviéticas, radiação, ataques de animais e até alienígenas circularam por anos. Mas uma investigação recente apontou outra possível explicação.
Teorias sobre armas soviéticas, radiação, ataques de animais e até alienígenas circularam por anos. Mas uma investigação recente apontou outra possível explicação.

O caso do Passo Dyatlov permanece como um episódio emblemático da relação entre o ser humano e ambientes extremos. A busca por respostas envolveu ciência, jornalismo, tecnologia e cultura popular ao longo de seis décadas.

A explicação atual, baseada em evidências técnicas e análises geofísicas, oferece uma possível solução ao enigma. Ainda assim, as incertezas e o tempo decorrido mantêm o caso aberto a interpretações e novas descobertas.

Ao revisitar os fatos com novas ferramentas, o caso demonstra a importância de reexaminar o passado à luz da ciência atual. Ele se torna um exemplo de como tecnologia e persistência podem ajudar a esclarecer episódios que desafiam a lógica por gerações.

Fonte: Carro.Blog.Br, Nature, Brasil, Super e Bbc.