A estreia de um novo capítulo na história da aviação comercial ocorreu simultaneamente em Paris e Londres, em janeiro de 1976. A bordo de uma aeronave projetada para voar mais rápido que o som, passageiros decolaram rumo ao Rio de Janeiro e ao Bahrein em voos operados pela Air France e pela British Airways. O nome do avião era Concorde, símbolo de uma era que prometia transformar radicalmente o transporte aéreo. Em teoria, o mundo caminhava para atravessar oceanos em poucas horas.
Pontos Principais:
Porém, o que começou como uma promessa de inovação duradoura terminou como um projeto encerrado menos de 30 anos depois. O Concorde saiu de operação e, desde então, nenhuma outra aeronave comercial supersônica ocupou seu lugar. A indústria recuou, as velocidades se estabilizaram e o cenário da aviação passou a parecer imóvel diante dos avanços vistos em outras áreas da tecnologia.
Afinal, por que a aviação supersônica desapareceu? Por que o setor recuou em vez de seguir acelerando? Para compreender essa pausa nas inovações de velocidade e tamanho, é preciso entender não só o que foi o Concorde, mas também o contexto histórico, os desafios técnicos, os custos envolvidos e o que ainda se projeta para o futuro dos céus.
A ideia de construir objetos capazes de voar existe desde a Antiguidade. Há cerca de 2.500 anos, o matemático Arquitas de Tarento teria desenvolvido um artefato movido a ar comprimido que planava por distâncias curtas. No século seguinte, os chineses criaram as pipas, um conceito que permanece até hoje.
Durante o Renascimento, Leonardo da Vinci desenhou protótipos de helicópteros, planadores e até uma máquina que imitava o bater de asas de aves, o ornitóptero. Esses desenhos nunca saíram do papel por limitações tecnológicas da época, mas influenciaram profundamente o desenvolvimento posterior da engenharia aeronáutica.
Já no século XVIII, os irmãos Montgolfier lançaram o primeiro balão tripulado, com experimentos anteriores usando animais. A invenção marcou o início dos voos com seres vivos a bordo. No entanto, foi somente no século XX que o voo controlado e com propulsão própria se tornou realidade.
O primeiro avião que conseguiu decolar por meios próprios foi o 14-Bis, criado por Alberto Santos Dumont e voado em Paris em 1906. Embora os irmãos Wright tenham realizado voos em 1903, suas máquinas exigiam trilhos e sistemas auxiliares de lançamento. A diferença está na definição do que constitui um “avião”, e isso divide a opinião entre historiadores e engenheiros.
Com o avanço da tecnologia e o início das guerras mundiais, a aviação foi intensamente impulsionada. A Primeira Guerra elevou a velocidade média dos aviões de menos de 100 km/h para cerca de 230 km/h. A Segunda Guerra Mundial consolidou motores a jato e aumentou drasticamente o investimento em pesquisa aeronáutica.
Ao fim das guerras, a aviação civil passou a crescer, com destaque para empresas como Air France, KLM e Lufthansa. A era de ouro da aviação, nos anos 1930 e 1940, foi marcada por voos mais seguros, cabines pressurizadas e melhor navegação.

No auge da Guerra Fria, a busca pela supremacia tecnológica se intensificou. Enquanto Estados Unidos e aliados planejavam o Concorde, a União Soviética desenvolvia seu próprio avião supersônico, o Tupolev Tu-144. Em 1969, o modelo soviético foi o primeiro a quebrar a barreira do som.
Apesar do pioneirismo, o Tu-144 enfrentou sérios problemas técnicos, incluindo um acidente fatal em 1973. Foram registradas mais de 200 falhas em pouco mais de 180 horas de voo. O projeto perdeu viabilidade técnica e econômica, e foi encerrado nos anos 1970.
Enquanto isso, o Concorde se desenvolvia com uma proposta diferente. O projeto europeu envolveu uma cooperação entre França e Inglaterra. A escolha do nome, que quase gerou atrito diplomático, simbolizava a tentativa de conciliação entre as nações e suas capacidades técnicas.
O primeiro voo de teste do Concorde ocorreu em 1969. Após sete anos de ajustes, a operação comercial começou em 1976. No total, foram produzidas 20 aeronaves, das quais 14 foram operadas comercialmente. O Concorde atingia velocidades de até 2.180 km/h, reduzindo o tempo de voo entre Londres e Nova York para cerca de 3h30.
Durante os voos, painéis mostravam a velocidade em tempo real, e o momento em que a aeronave ultrapassava a barreira do som era comemorado a bordo. Apesar do espaço interno limitado, o serviço oferecia bebidas finas e refeições elaboradas, atendendo a um público com alto poder aquisitivo.
O modelo se consolidou como um ícone, mas seus custos operacionais sempre foram elevados. O consumo de combustível chegava a 25 mil litros por hora. O preço das passagens ultrapassava os 10 mil dólares, e o aumento do preço do petróleo após a crise energética da década de 1970 tornou o modelo inviável financeiramente.
A partir dos anos 1990, os prejuízos operacionais do Concorde aumentaram. Dois eventos, no entanto, foram determinantes para seu fim. Em julho de 2000, um acidente durante a decolagem em Paris matou 113 pessoas. Um ano depois, os atentados de 11 de setembro de 2001 impactaram o setor aéreo global, reduzindo drasticamente a demanda por voos de luxo e negócios.
Muitos dos passageiros frequentes do Concorde trabalhavam nos Estados Unidos, especialmente no setor financeiro. A diminuição dessa clientela comprometeu ainda mais a rentabilidade das operações. Em 2003, a Air France e a British Airways encerraram definitivamente os voos do Concorde.
O declínio do Concorde coincidiu com o início da retirada de aviões gigantes de operação comercial. O Boeing 747-400, com capacidade para mais de 600 passageiros, foi sendo aposentado por companhias como Qantas, British Airways e empresas americanas, que passaram a usá-lo apenas como cargueiro.
A Airbus também enfrentou limitações com o modelo A380. A Lufthansa e a Air France interromperam o uso comercial da aeronave, e a Emirates revisou suas encomendas. A principal razão para essas mudanças foi o alto custo operacional desses aviões, exigindo alta taxa de ocupação para operar com lucro.
Na aviação comercial, o Boeing 737 segue como o modelo mais vendido desde os anos 1960. Sua eficiência operacional o torna uma escolha sólida para as companhias. Na aviação militar, o bombardeiro B-52 e o caça F-16 permanecem em uso, com previsões de atividade por mais décadas.
Esses modelos oferecem bom custo-benefício, resistência estrutural e confiabilidade operacional. Em vez de substituir essas aeronaves, os governos optaram por atualizações tecnológicas pontuais, prolongando sua vida útil. Isso alimenta a percepção de que a aviação parou no tempo.

Apesar da estabilidade em termos de velocidade e tamanho, a aviação continua evoluindo. A Boeing testa tecnologias no projeto ECO-Demonstrador, incluindo sensores sem fio, previsão de turbulências com laser e uso de biodiesel derivado da cana-de-açúcar.
Essas inovações não visam maior velocidade, mas sim eficiência energética, segurança e sustentabilidade. O foco atual está em reduzir custos e impactos ambientais, alinhando a aviação às metas globais de redução de emissões.
Um novo projeto pode marcar a retomada dos voos supersônicos. A empresa Boom Supersonic está desenvolvendo o avião Overture, com previsão de operação a partir de 2029. O modelo deve atingir até Mach 1,7 e transportar cerca de 80 passageiros.
Para evitar os efeitos sonoros sobre áreas urbanas, o Overture voará abaixo da velocidade do som sobre terra firme, acelerando apenas sobre os oceanos. A empresa também promete utilizar SAF, combustível sustentável de aviação produzido a partir de resíduos e óleos vegetais.
O sucesso da nova geração de aviões supersônicos dependerá da viabilidade econômica, um obstáculo que não foi superado no caso do Concorde. Companhias como American Airlines, United e Japan Airlines já demonstraram interesse, mas o mercado segue cauteloso.
Paralelamente à aviação comercial, empresas e agências espaciais ampliam os projetos de exploração espacial. A Boeing realizou voos tripulados em parceria com a NASA e novas missões à Lua e Marte estão em desenvolvimento para a próxima década.
A fronteira tecnológica se desloca para fora da Terra, mas os desafios permanecem similares: segurança, custo e sustentabilidade. A busca por avanços na aviação comercial e na exploração espacial caminham lado a lado, redefinindo os limites da mobilidade humana.