Nietzsche x A Loucura: o colapso do filósofo diante do abismo e o mistério por trás de sua mente

Não foi apenas um colapso. Quando Nietzsche abraçou o cavalo em Turim, selou também o início de uma década em silêncio e delírio. De sífilis a uma condição cerebral genética rara, médicos e pesquisadores ainda buscam entender por que um dos maiores filósofos da história mergulhou na insanidade. Entre escritos geniais e um fim trágico, a mente brilhante de Nietzsche permanece um enigma tão profundo quanto suas obras.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 30/06/2025

A trajetória de Friedrich Nietzsche rumo à insanidade permanece como uma das questões mais debatidas entre estudiosos da filosofia, da medicina e da psicologia. O filósofo alemão, conhecido por suas obras impactantes e pensamentos provocadores, teve sua vida interrompida de maneira abrupta por um colapso mental ocorrido em 1889. A cena em que Nietzsche se atira aos prantos sobre um cavalo açoitado nas ruas de Turim se tornou símbolo do momento em que sua mente rompeu com a realidade.

Pontos Principais:

  • Nietzsche teve um colapso nervoso em Turim, abraçando um cavalo agredido.
  • Foi diagnosticado com “psicose orgânica sifilítica”, mas essa hipótese hoje é questionada.
  • Pesquisas atuais apontam para CADASIL, uma doença cerebral hereditária rara.
  • Sintomas da doença explicam seus delírios, obras intensas e comportamento excêntrico.
  • O filósofo viveu seus últimos 10 anos em silêncio absoluto até sua morte em 1900.

Durante os anos seguintes, Nietzsche foi diagnosticado com distúrbios diversos, passou por instituições psiquiátricas e viveu uma década de completo isolamento, sem pronunciar mais nenhuma palavra. A busca por explicações para esse colapso tem atravessado gerações, com hipóteses médicas e interpretações filosóficas se cruzando em diferentes direções. De sífilis a doenças genéticas, passando pela influência de sua própria obra sobre sua sanidade, o caso continua sendo examinado sob novas lentes.

Documentos históricos, registros clínicos e pesquisas modernas foram reunidos para traçar uma linha coerente sobre o que pode ter levado Nietzsche a esse estado. Essa investigação busca abordar de maneira cronológica, analítica e imparcial os eventos e teorias que compõem esse quebra-cabeça, revelando o que a ciência e a filosofia conseguiram descobrir até o presente momento.

O colapso em Turim

Em janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche protagonizou um episódio que marcaria sua biografia para sempre. Nas ruas da Piazza Carlo Alberto, em Turim, o filósofo presenciou um homem agredindo um cavalo. Ele correu até o animal, abraçou-o e caiu em prantos. Pouco depois, desmaiou e foi levado a um hospital. A partir desse momento, Nietzsche nunca mais voltaria ao seu estado anterior de lucidez.

A cena, embora isolada, se transformou em marco simbólico do rompimento definitivo de Nietzsche com a realidade. Ao despertar, ele já não conseguia manter um discurso coerente e apresentava sinais de delírios e confusão. Sua família relatou mudanças drásticas em seu comportamento, culminando na decisão de interná-lo em uma instituição psiquiátrica.

Esse episódio não foi interpretado apenas como uma crise emocional, mas como o início de um processo neurodegenerativo. Os anos que se seguiram foram marcados por reclusão e silêncio. A imagem do filósofo, outrora ativo em suas reflexões e correspondências, foi substituída pela de um paciente em estado avançado de deterioração mental.

Diagnóstico médico inicial

Nietzsche sofreu um colapso mental após abraçar um cavalo agredido em Turim, em 1889. A partir desse episódio, o filósofo nunca mais voltou ao estado de lucidez anterior.
Nietzsche sofreu um colapso mental após abraçar um cavalo agredido em Turim, em 1889. A partir desse episódio, o filósofo nunca mais voltou ao estado de lucidez anterior.

Na época, Nietzsche passou por dois hospitais que deixaram registros médicos: um na Basileia, em 1889, e outro em Jena, em 1890. Ambos os documentos identificam seu estado como resultado de uma “psicose orgânica sifilítica”, diagnóstico comum para pacientes com sintomas neuropsiquiátricos graves naquele período.

A sífilis era uma das principais hipóteses para explicar comportamentos de natureza psicótica no final do século XIX. Entretanto, as limitações da medicina da época dificultavam uma distinção mais precisa entre diferentes distúrbios mentais e neurológicos. A associação com a sífilis foi, por muito tempo, aceita como explicação predominante.

Com o avanço da medicina, essa hipótese passou a ser questionada. Especialistas atuais apontam inconsistências, como a sobrevida prolongada de Nietzsche após o aparecimento dos sintomas, algo raro em casos não tratados de neurossífilis. Além disso, relatos sobre sua vida pessoal e hábitos de saúde não confirmam com clareza os meios pelos quais ele poderia ter contraído a doença.

A hipótese genética

Estudos mais recentes indicam que Nietzsche pode ter sofrido de uma condição neurológica hereditária chamada CADASIL, sigla para Arteriopatia Cerebral Autossômica Dominante com Infartos Subcorticais e Leucoencefalopatia. A doença é caracterizada por pequenas obstruções dos vasos cerebrais, resultando em múltiplos AVCs e comprometimentos progressivos das funções cognitivas.

Essa teoria ganha força ao se observar o histórico familiar de Nietzsche. Seu pai, Karl Ludwig Nietzsche, morreu aos 36 anos com sintomas similares e foi diagnosticado com o chamado “amolecimento cerebral”. Esse termo genérico era utilizado na época para diferentes tipos de doenças neurológicas, incluindo as que hoje se sabe serem causadas por degenerações vasculares hereditárias.

A análise da árvore genealógica de Nietzsche revela que outros membros da família também apresentavam distúrbios mentais, o que reforça a probabilidade de uma predisposição genética. CADASIL, além de causar infartos cerebrais silenciosos, está associada a distúrbios de personalidade e episódios psicóticos, como os que marcaram a fase final da vida do filósofo.

Comportamentos e estilo de vida

Nietzsche também fez uso regular de substâncias como haxixe e cloral, um sedativo utilizado para induzir o sono. Essas substâncias eram frequentemente utilizadas por pacientes que sofriam com dores crônicas ou insônia, mas seu uso prolongado podia causar efeitos colaterais, agravando quadros de instabilidade emocional e mental.

Além disso, os relatos de sua mãe apontam que ele alternava períodos de agitação intensa com momentos de introspecção profunda. Em sua autobiografia “Ecce Homo”, escrita pouco antes do colapso, ele se identifica com figuras como Dionísio e Cristo, demonstrando um estado alterado de percepção e autopercepção.

Esse padrão de comportamento pode ser compatível com as manifestações de CADASIL, que incluem distúrbios de humor, confusão mental e crises psicóticas. O acúmulo desses episódios pode ter contribuído para o agravamento do quadro, levando ao episódio definitivo em Turim.

Produção intelectual e sobrecarga cerebral

O período que antecedeu o colapso foi também um dos mais produtivos da carreira de Nietzsche. Em Turim, escreveu três das suas obras mais importantes: “Crepúsculo dos Ídolos”, “O Anticristo” e “Ecce Homo”. Em uma carta enviada a um amigo, Nietzsche se referiu a esse período como sua “temporada de colheita”.

Segundo o diretor do hospital psiquiátrico que o recebeu, o esforço intelectual extremo pode ter estimulado em excesso o sistema nervoso do filósofo. Essa teoria é reforçada por pesquisas que sugerem que estilos de vida altamente intelectualmente ativos podem retardar a demência, mas também desencadeá-la em indivíduos com predisposição genética.

A intensidade da escrita, aliada aos problemas vasculares cerebrais possivelmente já em curso, pode ter precipitado o colapso. A sobrecarga de atividade cerebral teria, portanto, contribuído diretamente para o agravamento de seu estado de saúde mental.

Os últimos anos

Nos anos seguintes, Nietzsche viveu em silêncio absoluto, sem produzir ou se comunicar. Sua mente, antes intensa e ativa, foi lentamente apagada até sua morte em 1900.
Nos anos seguintes, Nietzsche viveu em silêncio absoluto, sem produzir ou se comunicar. Sua mente, antes intensa e ativa, foi lentamente apagada até sua morte em 1900.

Após o colapso em Turim, Nietzsche passou a viver sob os cuidados da mãe, e depois da irmã. Durante os dez anos seguintes, não voltou a escrever, tampouco manteve conversas coerentes. Ficava recluso em seu quarto, onde passava longos períodos tocando piano, cantando, gritando ou apenas em silêncio.

Relatos indicam que ele vivia episódios de delírios, dançava nu, conversava com entidades divinas e acreditava ser Dionísio. Essas manifestações foram interpretadas como sintomas de distúrbios mentais graves, associados a danos neurológicos progressivos.

Em seu último momento de lucidez, olhou para a mãe e disse: “eu sou um idiota”. Após isso, permaneceu completamente em silêncio até sua morte, em 1900, aos 55 anos. O homem que revolucionou a filosofia moderna passou seus últimos anos imerso em um estado de completa desconexão com o mundo exterior.

Conclusões médicas e filosóficas

Ainda que os registros da época tenham limitado valor diagnóstico nos padrões atuais, a teoria da doença genética CADASIL oferece uma explicação mais consistente para o caso de Nietzsche do que a sífilis. Além de explicar os sintomas mentais, a doença também se manifesta fisicamente e tem padrão hereditário compatível com o histórico da família.

Há um consenso crescente entre pesquisadores de que Nietzsche viveu com sintomas progressivos de uma doença cerebral degenerativa, o que se refletiu tanto em sua vida pessoal quanto em sua produção filosófica. A separação entre genialidade e loucura, nesse caso, parece menos evidente.

O caso também suscita questionamentos sobre como estilos de vida intensos podem interagir com predisposições biológicas. A mente de Nietzsche, ao mesmo tempo ativa e fragilizada, pode ter sido impulsionada por mecanismos cerebrais incomuns que o levaram tanto à criação quanto à destruição.

Interpretação do legado

Nietzsche permanece como figura central do pensamento moderno. Suas ideias continuam influentes e suas obras são objeto de estudos em múltiplas áreas do conhecimento. O colapso final de sua mente não anula sua contribuição intelectual, mas impõe novas camadas de análise.

Muitos pesquisadores tentam separar o filósofo da doença, buscando compreender onde termina o pensamento racional e onde começa o delírio. Outros afirmam que ambas as coisas coexistem em sua obra, como produto inevitável de um cérebro em conflito com sua própria estrutura.

A análise do caso Nietzsche é também uma reflexão sobre os limites da sanidade, o peso do sofrimento e o papel da biologia na formação do pensamento. Seu silêncio final contrasta com a intensidade de suas palavras escritas, tornando ainda mais enigmática sua trajetória.

Relevância atual

Os estudos sobre Nietzsche ajudam não apenas a entender sua obra, mas também a medicina e a neurociência. A reavaliação do seu diagnóstico contribui para uma compreensão mais precisa de doenças raras como o CADASIL, ainda pouco conhecidas no debate público.

A história do filósofo também estimula debates sobre o impacto do ambiente intelectual, da pressão criativa e das condições de saúde sobre grandes pensadores. Seu caso oferece uma perspectiva multifatorial sobre a interação entre mente, corpo e contexto.

O colapso de Nietzsche não representa apenas uma tragédia pessoal. Ele se insere em um panorama mais amplo de como doenças neurológicas podem moldar o destino de indivíduos notáveis. O filósofo que alertou sobre os perigos de se olhar para o abismo, talvez tenha vivido exatamente o que tanto escreveu.

Fonte: Pubmed, Razaoinadequada, Scielo, Historycollection e Existenz.