Multiverso e realidades paralelas: as teorias que desafiam os limites da física moderna

E se cada escolha sua criasse uma nova realidade? A física moderna propõe interpretações ousadas sobre multiversos, mundos paralelos e dimensões extras, usando fundamentos da mecânica quântica, relatividade geral, inflação cósmica e teoria das cordas. Algumas hipóteses parecem ficção, mas buscam responder por que o universo tem leis tão ajustadas à vida. Mesmo sem provas definitivas, essas ideias refletem nossa eterna busca por sentido no cosmos.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 23/06/2025

A existência de múltiplos universos tem sido objeto de debate entre físicos e pesquisadores ao longo das últimas décadas. A hipótese de que cada decisão ou evento poderia gerar uma nova realidade ganhou força com a consolidação de algumas teorias fundamentais da física moderna. Ainda sem comprovação empírica, essas interpretações abriram caminhos para pensar a estrutura do universo para além daquilo que é observável.

Pontos Principais:

  • A interpretação de muitos mundos sugere que cada decisão cria um universo distinto.
  • Se o universo for infinito, pode conter repetições exatas do nosso em outras regiões.
  • A inflação cósmica eterna propõe que novos universos surgem constantemente em bolhas.
  • A teoria das cordas prevê múltiplas dimensões e universos com diferentes constantes físicas.
  • O princípio antrópico tenta explicar por que as leis do nosso universo permitem a vida.

Diferentes abordagens foram propostas para descrever realidades paralelas, muitas delas surgindo de esforços para conciliar a mecânica quântica com a relatividade geral. Os desdobramentos dessas ideias envolvem conceitos como mundos paralelos, realidades ramificadas, bolhas cósmicas e dimensões compactadas. Apesar das limitações observacionais, essas propostas buscam responder questões fundamentais como a origem do universo, a razão das constantes físicas e a própria existência da vida.

A combinação entre abstração matemática e observações indiretas tem sido a principal ferramenta para sustentar esses modelos. Ainda que as hipóteses permaneçam no campo especulativo, elas representam tentativas de compreender fenômenos que não se encaixam em explicações clássicas e abriram margem para reavaliar a natureza do universo em escalas extremas.

Interpretação de Muitos Mundos

A interpretação de muitos mundos da mecânica quântica propõe que todas as possibilidades associadas a eventos quânticos realmente ocorrem, mas em universos distintos. Cada escolha, por menor que seja, seria suficiente para gerar uma nova realidade paralela, com desfechos diferentes e coexistentes. A mecânica quântica, nesse contexto, é vista como uma estrutura que não colapsa em um único resultado, mas sim como um sistema de bifurcação infinita.

Essa teoria ganhou destaque ao ser relacionada com o experimento mental conhecido como gato de Schrödinger. O modelo propõe que, enquanto não se observa o sistema, o gato está em uma sobreposição de estados — vivo e morto. A interpretação de muitos mundos resolve essa indeterminação sugerindo que ambos os estados ocorrem, cada um em um universo próprio.

Dessa forma, o ato de observação não colapsa o estado quântico, apenas determina em qual universo o observador está inserido. A consequência teórica é a existência de um número incalculável de universos paralelos, cada qual contendo resultados alternativos de eventos quânticos.

Universo Infinito e Multiverso Estatístico

A relatividade geral de Einstein oferece outra abordagem para o multiverso, baseada na estrutura do espaço-tempo. Quando aplicada em larga escala, essa teoria indica que o universo pode ser infinito, sem limites definidos. Isso não significa que tudo é observável, mas sim que existem regiões além do alcance da luz emitida desde o início do cosmos.

A consequência direta dessa infinitude é estatística. Se o número de partículas no universo observável é finito, mas o espaço é infinito, então haverá repetições inevitáveis na organização da matéria. Isso levaria à existência de outras regiões do universo com configurações idênticas à nossa, ainda que separadas por distâncias incomensuráveis.

A teoria dos muitos mundos sugere que todos os resultados possíveis ocorrem em universos distintos. Cada escolha, por menor que seja, cria uma nova linha de realidade.
A teoria dos muitos mundos sugere que todos os resultados possíveis ocorrem em universos distintos. Cada escolha, por menor que seja, cria uma nova linha de realidade.

Esse cenário é chamado de multiverso estatístico. Ele propõe que, a uma distância de aproximadamente 10 elevado a mil anos-luz, existiria um universo exatamente igual ao nosso. Dentro dele, haveria uma cópia exata de cada pessoa, reproduzindo as mesmas ações, incluindo assistir ao mesmo vídeo ou pensar nas mesmas perguntas.

Inflação Cósmica Eterna

A teoria da inflação cósmica sugere que o universo passou por uma expansão acelerada logo após o Big Bang. Esse processo teria durado uma fração mínima de segundo, expandindo o universo em uma escala gigantesca. Porém, versões alternativas dessa teoria propõem que a inflação nunca cessou completamente.

Na hipótese da inflação eterna, o universo continua a se expandir em um ritmo exponencial, gerando bolhas onde a inflação para e um universo pode surgir. Cada bolha dessas seria um universo independente, com estrutura própria, leis da física possivelmente distintas e uma linha do tempo separada da nossa.

Esse modelo implica que o universo conhecido está inserido em uma dessas bolhas, enquanto outras, invisíveis e desconectadas, continuam se formando. A ideia de que essas bolhas possam colidir ou interagir em algum momento foi levantada como forma de eventualmente detectar uma assinatura observável da existência de outros universos.

A física moderna propõe que cada decisão humana ou evento quântico pode gerar uma nova realidade. Isso levanta a hipótese da existência de múltiplos universos simultâneos.
A física moderna propõe que cada decisão humana ou evento quântico pode gerar uma nova realidade. Isso levanta a hipótese da existência de múltiplos universos simultâneos.

Teoria das Cordas e Dimensões Extras

A teoria das cordas surge como tentativa de unificar a mecânica quântica com a gravidade, propondo que todas as partículas fundamentais são, na verdade, cordas vibrando em diferentes frequências. Essa abordagem requer um número maior de dimensões espaciais do que os três eixos conhecidos.

Segundo o modelo, existem dez dimensões espaciais, sendo sete delas compactadas em escalas extremamente pequenas. Essas dimensões extras estariam ocultas e só teriam impacto em fenômenos de alta energia, como aqueles presentes nos momentos iniciais do universo ou dentro de buracos negros.

A diversidade na forma de compactação dessas dimensões levaria à existência de múltiplas soluções possíveis para as constantes físicas fundamentais. A consequência é que a teoria das cordas não define um universo específico como o correto, mas uma paisagem ampla de possibilidades. Cada configuração dessas dimensões implicaria um universo diferente, com valores distintos para massa, carga e intensidade das interações.

O Princípio Antrópico

Diante da multiplicidade de possibilidades, surge o questionamento sobre por que o universo possui exatamente os valores necessários para a existência da vida. O princípio antrópico oferece uma possível explicação: só é possível observar o universo porque ele permite que seres conscientes existam.

Se houver infinitos universos com diferentes constantes físicas, então, por pura estatística, haverá alguns com as condições necessárias para a vida. O nosso seria um desses casos. Não seria necessário um ajuste deliberado ou uma causa externa, apenas uma seleção natural entre todas as possibilidades existentes.

Essa hipótese, no entanto, também recebe críticas. Muitos consideram que ela apenas desloca o problema, apelando para realidades que não podem ser testadas. Ainda assim, o princípio antrópico permanece como uma tentativa de justificar as coincidências observadas nas leis da física sem recorrer a explicações sobrenaturais.

Limitações e Críticas

Apesar do rigor matemático de algumas dessas propostas, nenhuma delas foi confirmada experimentalmente. A ausência de meios para testar universos paralelos coloca essas ideias em uma posição controversa dentro da ciência. Alguns físicos argumentam que, sem testes, não é possível classificá-las como teorias científicas no sentido estrito.

Outros, no entanto, defendem que elas cumprem um papel importante ao apontar caminhos possíveis para a unificação das grandes teorias da física. Mesmo sem provas diretas, esses modelos têm capacidade de prever estruturas e comportamentos coerentes com dados já observados, o que os torna relevantes para o desenvolvimento teórico.

O debate sobre a validade científica dessas hipóteses continua aberto. A questão central é se a ciência deve se limitar ao que pode ser testado hoje ou se pode incluir modelos que, mesmo fora do alcance atual, sejam consistentes com a lógica interna das teorias estabelecidas.

Reflexões sobre a Existência

A discussão sobre multiverso não se limita à física. Ela alcança também questões filosóficas sobre o sentido da existência e o papel do ser humano no cosmos. A ideia de que podemos ser apenas um entre infinitos cenários possíveis levanta dúvidas sobre singularidade, destino e identidade.

Se existem outras versões de cada pessoa, vivendo vidas diferentes com base em pequenas variações de escolha, então as fronteiras entre realidade, possibilidade e imaginação tornam-se menos nítidas. A física, nesse sentido, passa a dialogar com temas que historicamente foram domínio da filosofia.

Essa interação entre ciência e reflexão existencial é uma das marcas da física moderna. Ao mesmo tempo em que busca descrever o universo com precisão, ela convida à contemplação sobre nossa origem, propósito e o que significa existir em meio a uma rede infinita de realidades possíveis.

Fonte: Terra, Wikipedia e Nationalgeographicbrasil.