Mar dos Sargaços: da floresta marinha ao alerta ambiental global por proliferação de algas

A mais de mil quilômetros da costa, o Mar dos Sargaços já foi abrigo vital para enguias, tartarugas e plânctons. Hoje, pressões ambientais e humanas o transformam em um laboratório de desequilíbrios ecológicos. Fertilizantes, desmatamento e mudanças climáticas aceleram um fenômeno inédito: a criação de um novo mar de sargaços. O impacto vai de praias brasileiras a rotas migratórias globais, exigindo respostas coordenadas e sustentáveis.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 30/05/2025

Nos confins do Atlântico Norte, longe de qualquer costa ou continente, existe uma vasta extensão de águas que desafia as definições tradicionais do que é um mar. Este território líquido, conhecido como Mar dos Sargaços, é delimitado por correntes oceânicas, não por margens de terra. Situado entre as latitudes 20° e 35° N e longitudes 40° e 70° O, ele ocupa cerca de 4 milhões de quilômetros quadrados. Diferentemente de outras regiões marítimas, seu contorno é definido por um sistema de giros oceânicos, composto pela Corrente do Golfo, Corrente do Atlântico Norte, Corrente das Canárias e Corrente Equatorial do Atlântico Norte.

Pontos Principais:

  • O Mar dos Sargaços é delimitado por correntes oceânicas, sem margens terrestres.
  • Mudanças químicas nas águas causam florações de sargaço prejudiciais.
  • Um novo cinturão de sargaço surgiu no Atlântico Central desde 2011.
  • Impactos atingem biodiversidade, turismo e comunidades pesqueiras.
  • Pesquisadores propõem soluções sustentáveis e proteção internacional.

Historicamente conhecido desde as viagens de Cristóvão Colombo, o Mar dos Sargaços causava receio nas tripulações que se aventuravam pelas águas do Novo Mundo. Os navegadores do século XV relatavam encontros com densos bancos de algas que podiam prender as embarcações à deriva, agravados pela calmaria frequente na região. O termo “sargaço” tem origem nas macroalgas flutuantes que dominam a paisagem aquática local. O que parecia apenas uma curiosidade náutica revelou-se, com o tempo, uma complexa zona de biodiversidade e relevância ecológica.

Cientistas propõem uso sustentável da biomassa do sargaço e criação de áreas marinhas protegidas. O futuro do mar depende de ações globais e soluções locais.
Cientistas propõem uso sustentável da biomassa do sargaço e criação de áreas marinhas protegidas. O futuro do mar depende de ações globais e soluções locais.

O interesse científico no Mar dos Sargaços aumentou ao longo do século XX, sobretudo por seu papel biológico e climático. Estudos posteriores revelaram que essa região abriga comunidades diversas de peixes, crustáceos, tartarugas e aves marinhas. Além disso, sua função como habitat transitório e reprodutivo de espécies migratórias despertou a atenção de biólogos marinhos. Entretanto, nas últimas décadas, mudanças ambientais e ações humanas vêm alterando esse panorama de forma significativa.

Ecologia e biodiversidade

As algas do gênero Sargassum, em especial as espécies S. natans e S. fluitans, são a base do ecossistema do Mar dos Sargaços. Ao flutuarem livremente na superfície, formam uma espécie de floresta marinha suspensa. Essas estruturas oferecem refúgio, alimento e abrigo para peixes-voadores, caranguejos, enguias e diversas espécies de tartarugas. Estudos metagenômicos demonstraram ainda a presença significativa de vida microbiana.

A região é estratégica para a reprodução de enguias-europeias e americanas, que viajam milhares de quilômetros desde rios da Europa e América do Norte até essa área para se reproduzirem. O ciclo reprodutivo completo dessas espécies ainda não é completamente compreendido, mas sabe-se que as larvas seguem as correntes oceânicas até os continentes, retornando anos depois para fechar o ciclo.

Além dos peixes, aves marinhas utilizam o local como rota de alimentação. Cetáceos como baleias-jubarte e cachalotes também fazem uso da região como corredor migratório. Esse mosaico de espécies e interações transforma o Mar dos Sargaços em um ponto-chave da conectividade marinha atlântica.

Transformações ambientais

Apesar da importância ecológica, o Mar dos Sargaços vem sofrendo alterações expressivas. Um dos principais fatores é o aumento da concentração de nitrogênio na água, provocado tanto por fontes naturais quanto por atividades humanas. O aporte de nutrientes ocorre por meio da descarga de grandes rios como o Amazonas, o Congo e o Mississippi, além da deposição atmosférica de poeira do Saara e a queima de biomassa africana.

Segundo pesquisadores da Florida Atlantic University, houve aumento de 35% na concentração de nitrogênio nos tecidos das algas desde os anos 1980, com uma queda correspondente de 42% nos níveis de fósforo. Esse desequilíbrio estimula o crescimento descontrolado do Sargassum, criando condições para a formação de florações de algas prejudiciais — um fenômeno que transforma o habitat original em uma zona com baixos níveis de oxigênio e alta concentração de substâncias tóxicas.

  • Sulfeto de hidrogênio, metano e amônia são liberados durante a decomposição das algas.
  • Peixes e corais podem ser afetados por mudanças no pH e na oxigenação da água.
  • Altos níveis de arsênio foram detectados nos tecidos das macroalgas.

Impactos sociais e econômicos

As arribadas de sargaço em grande escala atingem diversas regiões do Caribe e da costa brasileira, com destaque para áreas do Pará, Maranhão, Pernambuco e Fernando de Noronha. Em destinos turísticos, a presença dessas algas representa prejuízos financeiros expressivos, principalmente com a limpeza de praias e o cancelamento de reservas hoteleiras.

Estimativas indicam custos superiores a US$ 1 milhão por quilômetro de praia em eventos extremos no Caribe. No Brasil, ainda não existem dados oficiais consolidados, mas comunidades de pescadores relatam dificuldades operacionais e perda de produtividade devido ao acúmulo de sargaço nas redes.

Essas situações são agravadas pela ausência de um sistema nacional de monitoramento e alerta. Pesquisadores da USP e da UFPA trabalham atualmente em iniciativas com satélites e drones para prever a chegada das algas, permitindo antecipação de medidas de mitigação e uso alternativo da biomassa acumulada.

Surgimento de um novo cinturão

Desde 2011, imagens de satélite identificaram a formação de um novo cinturão de sargaço no Atlântico Central, com dimensões que ultrapassam 8.000 km de extensão e cerca de 20 milhões de toneladas de biomassa. Esse novo aglomerado conecta regiões da costa africana ao Caribe e, diferentemente do Mar dos Sargaços original, não é estacionário.

A formação desse cinturão é atribuída à interação de fatores como desmatamento na Amazônia, uso intensivo de fertilizantes e mudanças nas correntes oceânicas. O rio Amazonas, com sua imensa descarga de água doce e sedimentos, pode estar contribuindo para a concentração de nutrientes na região atlântica, favorecendo o crescimento das macroalgas.

Propostas de mitigação

Desde 2011, imagens revelam um novo cinturão de sargaço que se estende por 8 mil km no Atlântico Central, afetando rotas migratórias e atingindo praias do Brasil.
Desde 2011, imagens revelam um novo cinturão de sargaço que se estende por 8 mil km no Atlântico Central, afetando rotas migratórias e atingindo praias do Brasil.

Diante dos impactos crescentes, especialistas sugerem que o sargaço seja integrado a processos produtivos sustentáveis. Alternativas estudadas incluem sua utilização na geração de biogás, compostagem agrícola, produção de tijolos e até cimentos ecológicos. Algumas dessas tecnologias já foram testadas em pequena escala e demonstraram viabilidade técnica.

Além disso, entidades ambientais como a Sargasso Sea Commission e organizações como o Greenpeace defendem a criação de áreas protegidas em alto-mar, conforme autorizado pelo Tratado Global dos Oceanos aprovado pela ONU em 2024. A intenção é criar zonas de exclusão para atividades industriais e estabelecer corredores ecológicos para espécies migratórias.

  • Uso do sargaço como biomassa energética.
  • Integração a materiais de construção civil.
  • Criação de santuários marinhos internacionais.

Considerações finais

O Mar dos Sargaços exemplifica a complexidade dos ecossistemas oceânicos em escala planetária. De berçário marinho a zona impactada por atividades humanas, sua trajetória recente ilustra os desafios contemporâneos da conservação em alto-mar. A emergência de um novo cinturão flutuante de algas reforça a necessidade de políticas coordenadas entre países, investimentos em ciência e mecanismos de gestão adaptativa.

A continuidade do monitoramento, associada ao desenvolvimento de usos sustentáveis para o sargaço, pode representar um caminho viável para equilibrar conservação ambiental, saúde pública e atividades econômicas. O futuro do Mar dos Sargaços depende da capacidade global de reconhecer sua importância e responder de forma integrada aos seus desafios.

Fonte: Oantagonista, Super, Olhardigital e Wikipedia