Imagine uma criança de doze anos sendo levada por sua madrasta a um consultório médico. Ela não apresentava histórico de violência, não tinha problemas na escola e não havia sido diagnosticada por nenhum especialista com qualquer transtorno psicológico. Ainda assim, foi submetida a uma lobotomia transorbital, um procedimento cirúrgico que envolvia a introdução de um instrumento por trás do olho, até o cérebro, para seccionar conexões neurais. Howard Dully passou por isso em 1960, nos Estados Unidos. Sua história se tornaria um dos relatos mais emblemáticos sobre os limites da medicina no século XX.
Pontos Principais:
O procedimento foi realizado pelo Dr. Walter Freeman, conhecido por defender a lobotomia como alternativa rápida e acessível para diversos distúrbios mentais. Freeman acreditava que cortar as conexões entre o lobo frontal e o restante do cérebro seria suficiente para tratar desde esquizofrenia até casos de insônia. Ele realizava a cirurgia sem sala cirúrgica, anestesia geral ou critérios rigorosos. A técnica ganhou força por sua simplicidade, mas também gerou polêmica pelos danos permanentes causados aos pacientes.
Howard Dully cresceu com limitações cognitivas e emocionais resultantes da cirurgia. Somente na vida adulta ele iniciou uma busca por respostas. Através da análise de documentos médicos e entrevistas com profissionais da época, ele reconstituiu os motivos que o levaram à operação. O resultado desse processo foi o livro Minha Lobotomia, publicado em 2008, no qual ele narra não apenas o procedimento, mas também as consequências e a luta por compreensão.
A lobotomia surgiu nas décadas de 1930 e 1940, como parte de uma corrente chamada psicocirurgia. Na época, a medicina ainda não contava com recursos de imagem cerebral como a tomografia e não dispunha de medicamentos para transtornos mentais. Diante disso, cirurgias cerebrais eram vistas como soluções experimentais. O neurologista português António Egas Moniz foi um dos primeiros a desenvolver a técnica, chamada inicialmente de leucotomia pré-frontal. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1949.
O procedimento de Moniz envolvia o uso de um instrumento cirúrgico para cortar fibras nervosas no cérebro. A intenção era reduzir pensamentos obsessivos e estabilizar pacientes com distúrbios severos. Os primeiros testes foram realizados com injeção de etanol para romper as conexões cerebrais. Posteriormente, foi desenvolvido o leucótomo, ferramenta metálica usada para seccionar fisicamente os circuitos do lobo frontal.
Apesar das limitações técnicas da época, a prática se disseminou. Os critérios para realizar lobotomias variavam, e os relatos de sucesso vinham acompanhados de efeitos colaterais significativos. Entre os sintomas estavam apatia, desorientação, perda de memória e problemas motores. Muitos médicos consideravam os danos irreversíveis como parte do tratamento. Ainda assim, milhares de pacientes foram submetidos ao procedimento sem base científica consistente.
Walter Freeman foi o principal responsável por disseminar a lobotomia nos Estados Unidos. Embora não fosse cirurgião, realizou milhares de procedimentos em hospitais, clínicas e instituições psiquiátricas. Desenvolveu a técnica da lobotomia transorbital, que consistia na introdução de um instrumento metálico por trás do globo ocular. O objetivo era cortar as ligações entre o córtex pré-frontal e o restante do cérebro de forma rápida e barata.
No início, a lobotomia era aplicada somente em pacientes com casos extremos de esquizofrenia ou depressão. No entanto, Freeman começou a expandir os critérios. Ele acreditava que o procedimento deveria ser realizado preventivamente, antes que o transtorno mental se agravasse. A lobotomia passou a ser indicada para dores de cabeça, insônia, alterações de humor e até desobediência.
Freeman alegava uma taxa de sucesso de 85%. No entanto, os dados eram baseados em suas próprias observações, muitas vezes otimistas e não corroboradas por outros especialistas. Diários médicos e relatos de pacientes revelam que muitos apresentaram piora após o procedimento, e cerca de 15% dos casos resultaram em morte. O entusiasmo de Freeman pelo método contrastava com o sofrimento de milhares de pacientes, muitos dos quais não haviam recebido diagnóstico psiquiátrico formal.
Howard Dully foi uma das vítimas da lobotomia transorbital. Aos 12 anos, foi levado ao consultório de Walter Freeman por sua madrasta, Lou. O motivo apresentado foi comportamento difícil e episódios de raiva. Nenhum dos seis terapeutas anteriores havia recomendado tratamento psiquiátrico invasivo. Mesmo assim, após apenas um encontro com o garoto, Freeman concluiu que ele era esquizofrênico e indicou o procedimento.
A lobotomia foi realizada em poucos minutos. Após o procedimento, Howard apresentou dificuldades de aprendizagem, perda de memória e isolamento social. Passou a adolescência em instituições para jovens com problemas de comportamento. Na fase adulta, enfrentou problemas para se manter empregado e manter relacionamentos estáveis. Apenas aos 55 anos iniciou uma busca por respostas sobre sua história médica.
Com base em registros médicos e depoimentos, Howard escreveu o livro Minha Lobotomia, publicado em 2008. A obra se tornou uma referência sobre os abusos associados à psicocirurgia e ajudou a promover debates sobre saúde mental e direitos dos pacientes. Howard também passou a atuar em ações de conscientização, buscando evitar que erros semelhantes se repitam.
No Brasil, a lobotomia foi adotada principalmente no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em São Paulo. A prática foi introduzida sem critérios claros e, ao contrário de outros países, foi aplicada majoritariamente em mulheres. Registros indicam que cerca de 95% dos procedimentos realizados tinham como alvo pacientes do sexo feminino, apesar de elas representarem menos de 40% dos internados.
A motivação para as cirurgias muitas vezes não era médica. Jovens descritas como desobedientes, agressivas ou sexualmente ativas eram consideradas inadequadas para o convívio social e submetidas à lobotomia. O procedimento era utilizado como instrumento de controle de comportamento, ignorando os direitos das pacientes e os riscos envolvidos.
O declínio da lobotomia começou no final da década de 1950. O lançamento dos primeiros medicamentos antipsicóticos e antidepressivos reduziu a necessidade de intervenções cirúrgicas em casos psiquiátricos. Além disso, o Código de Nuremberg, criado após a Segunda Guerra Mundial, estabeleceu diretrizes para a realização de experimentos em seres humanos, exigindo consentimento informado e respeito à dignidade dos pacientes.
Essas mudanças levaram à proibição progressiva das lobotomias em diversos países. A comunidade médica passou a questionar os resultados, os métodos de avaliação e a ética envolvida na prática. Hoje, a lobotomia é considerada um dos maiores erros da medicina moderna, sendo lembrada como um exemplo de como a busca por soluções rápidas pode gerar consequências irreparáveis.
O caso de Howard Dully e outros pacientes que tiveram suas vidas alteradas por procedimentos sem comprovação científica são utilizados como referência para reforçar a importância da ética médica, da pesquisa baseada em evidências e do respeito aos direitos dos pacientes. A história da lobotomia permanece como um alerta para evitar a repetição de práticas que priorizem a conveniência institucional em detrimento da vida humana.