Funk: das favelas do Brasil para o mundo

O pesquisador e professor de música, Thiagson, compara o preconceito enfrentado pelo funk ao que já foram submetidos outros ícones culturais brasileiros, como a capoeira e o samba. Apesar dessas adversidades, o gênero mantém uma posição de destaque entre os ritmos brasileiros mais ouvidos globalmente, segundo a plataforma Spotify, angariando cada vez mais admiradores. MC Natitude destaca a presença de figuras icônicas como Anitta, Ludmila e MC Carol, mas enfatiza que ainda há espaço para mais representantes.
Publicado por Alan Correa em Entretenimento dia 13/08/2023

Nascido nas entranhas das favelas, frequentemente associado a estigmas de marginalização, preconceito, erotismo e até mesmo criminalidade, o gênero musical conhecido como “funk” tem desafiado adversidades para se firmar como um fenômeno de alcance internacional e conquistar os topos das paradas de música pop. Recentemente, a TV Brasil apresentou uma série documental que mergulha fundo nessa trajetória, intitulada “Funk: das favelas do Brasil para o mundo”. Todos os episódios estão disponíveis na íntegra no YouTube.

O pesquisador e professor de música, Thiagson, compara o preconceito enfrentado pelo funk ao que já foram submetidos outros ícones culturais brasileiros, como a capoeira e o samba. Apesar dessas adversidades, o gênero mantém uma posição de destaque entre os ritmos brasileiros mais ouvidos globalmente, segundo a plataforma Spotify, angariando cada vez mais admiradores. MC Natitude destaca a presença de figuras icônicas como Anitta, Ludmila e MC Carol, mas enfatiza que ainda há espaço para mais representantes.

Alvo de preconceitos, funk muda vidas e movimenta economia (AJ Gwynn/ Pixieset)
Alvo de preconceitos, funk muda vidas e movimenta economia (AJ Gwynn/ Pixieset)

No cenário de 2023, o álbum “Funk Brasil Vol. 1”, lançado pelo DJ Marlboro em 1989, celebra seu 34º aniversário. Esse álbum é considerado um ponto de partida fundamental para a evolução do funk brasileiro. Sua criação foi resultado de um encontro casual. Em 1986, o antropólogo Hermano Vianna presenteou o DJ Marlboro com uma pequena bateria eletrônica Boss DR-110, retirada do estúdio de seu irmão, Herbert Vianna, da banda Paralamas do Sucesso.

Marlboro recorda: “Hermano Vianna me procurou na rádio. Ele ouvia meu programa e estava trabalhando em sua tese de mestrado. Ele queria que eu o levasse para os bailes. Um belo dia, ele me presenteou com essa bateria eletrônica. Foi como acender a primeira lâmpada de ideias.” O álbum, que trazia letras em português, enfrentou resistência das gravadoras e até mesmo do movimento funk, que até então estava mais voltado para influências musicais internacionais. No entanto, o disco se tornou um estrondoso sucesso, com milhares de cópias vendidas.

Desde a década de 80, Marlboro já vislumbrava a expansão do funk. “Eu já previa o futuro do funk. Sabia que ele se popularizaria cada vez mais, transformando-se em uma música pop dançante com batidas de funk. Ele continuaria sendo a voz dos excluídos”, revela o pioneiro. A partir daí, o movimento se espalhou do Rio de Janeiro para São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e diversas outras capitais.

Marlboro enfatiza a influência positiva do funk na diminuição da violência nas favelas: “Quanto mais artistas tínhamos na favela, menos violenta ela se tornava. Outras pessoas surgiam como exemplos de ascensão, cidadania e uma vida melhor.”

O impacto do funk não se limita à esfera cultural, mas se estende à economia e ao tecido social. Com milhões de ouvintes e visualizações de clipes, o gênero impulsiona atividades econômicas, abrigando projetos, gravadoras e produtoras dedicadas ao seu desenvolvimento. A série documental menciona iniciativas como o “Rede Funk Social” em São Gonçalo (RJ), o “Projeto Estudeofunk” no Rio de Janeiro, o “Enxame de MC” em Recife, Pernambuco, e a notável “KondZilla”, o maior canal de música da América Latina.

Rachel Daniel, gerente de artistas e repertório da KondZilla, destaca a importância de reposicionar o funk como uma expressão artística legítima: “A KondZilla nasceu com a missão de repensar como o funk é percebido e reproduzido. Nosso objetivo é posicionar nossos artistas, nosso movimento e as pessoas que compõem essa cultura em um lugar de reconhecimento pela arte que produzem.”

A vida de indivíduos também foi transformada pelo funk, a exemplo da bailarina e educadora Lilian Martins, criada na zona sul de São Paulo. Ela relembra sua conexão com o movimento desde jovem, frequentando bailes e vendo-os como espetáculos grandiosos. Hoje, ela integra a “Clarín Cia de Dança”, que trouxe o estilo “passinho” para o palco do Theatro Municipal de São Paulo.

A série documental se desdobra em cinco episódios, cada um explorando uma faceta da jornada do funk: o surgimento do ritmo, o funk como expressão de identidade, as polêmicas e preconceitos, a cadeia produtiva e economia do gênero, e, por fim, o futuro do funk e seu impacto social.

*Com informações da Agência Brasil.

Alan Correa
Alan Correa
Sou jornalista desde 2014 (MTB: 0075964/SP), com foco em reportagens para jornais, blogs e sites de notícias. Escrevo com apuração rigorosa, clareza e compromisso com a informação. Apaixonado por tecnologia e carros.