O fundo dos oceanos permanece como uma das maiores incógnitas da humanidade. Mesmo após séculos de avanço científico e tecnológico, a maior parte do planeta ainda está submersa em mistério. Essa área inexplorada, que representa mais de dois terços da superfície da Terra, é hoje considerada a última fronteira da exploração terrestre.
Pontos Principais:
Embora os seres humanos tenham alcançado praticamente todos os continentes, escalado montanhas e cruzado desertos, a vastidão oceânica continua em grande parte desconhecida. Estima-se que mais de 90% das espécies marinhas ainda não tenham sido descritas pela ciência. A dificuldade de acesso, somada às condições extremas das profundezas, contribui para a falta de informações sobre esse ambiente.
Durante muito tempo, acreditou-se que a era da descoberta havia ficado para trás. No entanto, a exploração submarina mostra que ainda há territórios a serem compreendidos. As profundezas dos oceanos não apenas guardam segredos biológicos, mas também dados geográficos, climáticos e históricos que podem transformar a compreensão do planeta como um todo.
A partir dos primeiros metros abaixo da superfície, o ambiente marinho já começa a impor desafios. Com apenas 2 metros de profundidade, a maioria das pessoas já não consegue mais tocar o chão. Até os 40 metros, é possível realizar mergulhos recreativos com o uso de cilindros de oxigênio. Esse é o limite imposto por normas de segurança.
Conforme a profundidade aumenta, a luz do sol se torna escassa. Aos 100 metros, ainda é possível enxergar com alguma nitidez. Porém, a partir de 200 metros, a escuridão prevalece. Com 1.000 metros, a zona batipelágica marca o início da região onde não há mais qualquer incidência de luz solar. Essa camada recebe esse nome por derivar da palavra grega bathys, que significa profundo.
A pressão se torna um dos fatores mais limitantes na exploração submarina. A partir de 4.000 metros, entramos na zona abissal, onde vivem espécies adaptadas à completa ausência de luz. Entre 6.000 e 11.000 metros, está a zona hadal, nome inspirado no deus grego do submundo. Esse trecho inclui a Fossa das Marianas, o ponto mais profundo conhecido da Terra, com cerca de 11.000 metros.

A curiosidade pelo ambiente submarino é antiga. O princípio físico do empuxo foi estudado por Arquimedes há milênios, e serviu de base para o desenvolvimento das primeiras estruturas capazes de submergir. No século XVII, Cornelius Drebbel construiu o primeiro modelo funcional de submarino, utilizando um barco fechado com circulação de ar através de tubos.
Com o tempo, os veículos submersíveis evoluíram para atender principalmente a fins militares. As guerras do século XX incentivaram a criação de submarinos movidos a combustão e energia nuclear. Durante a Guerra Fria, a disputa geopolítica também se estendeu para as profundezas oceânicas, promovendo investimentos na exploração dos mares.
O marco histórico da exploração submarina ocorreu em 1960, quando o suíço Jacques Piccard e o americano Don Walsh chegaram à Fossa das Marianas a bordo do submersível Trieste. O feito foi repetido apenas em 2012, por James Cameron, cineasta e entusiasta do mundo subaquático. Nos últimos anos, o submersível Limiting Factor levou 27 pessoas ao ponto mais profundo do planeta.
Apesar das conquistas, ainda há grandes lacunas no mapeamento dos oceanos. O fundo do mar é extremamente irregular, o que dificulta a criação de mapas precisos. Satélites não conseguem capturar imagens diretas do solo oceânico, mas detectam variações no nível da água que revelam elevações e depressões no fundo.
O método mais eficaz de medição é o sonar. Ao emitir sinais sonoros em direção ao fundo e calcular o tempo de retorno, é possível estimar a profundidade de forma mais precisa. Contudo, esse processo é lento e exige grande quantidade de embarcações. Para acelerar o trabalho, foi criada a missão Seabed 2030, cujo objetivo é mapear todo o fundo do mar até o ano de 2030.
Desde o início do projeto, em 2017, o percentual de área mapeada aumentou de 6% para mais de 20%. A expectativa é alcançar uma resolução de 3 metros por pixel em áreas costeiras e 800 metros nas regiões remotas. Esses dados são fundamentais para compreender melhor o comportamento dos oceanos e sua influência sobre o planeta.
O avanço do mapeamento também levanta preocupações ambientais. O conhecimento detalhado do fundo do mar pode facilitar a extração de recursos naturais. Entre os principais alvos estão os nódulos polimetálicos, ricos em manganês, ferro, níquel e cobalto, com aplicações em baterias, painéis solares e armamentos.

O risco de degradação é real. Já foram encontradas sacolas plásticas em áreas de profundidade extrema, o que evidencia a presença humana até nas regiões mais inacessíveis. A extração desregulada pode afetar espécies desconhecidas e ecossistemas inteiros que ainda não foram estudados.
Por outro lado, o conhecimento do leito oceânico também pode ter aplicações positivas. O mapeamento contribui para o rastreamento de destroços de aviões, instalação de cabos de internet, previsão de tsunamis e análise de correntes marítimas. O equilíbrio entre exploração e preservação será determinante para os próximos anos.
O fundo do mar representa mais do que um desafio científico. É a fronteira final da descoberta geográfica no planeta Terra. Em um mundo onde quase tudo parece ter sido catalogado, o oceano profundo oferece uma oportunidade única para ampliar o conhecimento sobre o próprio planeta.
A exploração submarina carrega o mesmo espírito que impulsionou as grandes navegações e a corrida espacial. Ela exige tecnologia, cooperação internacional e uma abordagem cautelosa diante dos riscos. Mais do que isso, exige disposição para encarar o desconhecido.
Conforme novas tecnologias forem desenvolvidas, o fundo do mar deixará de ser um território misterioso e passará a integrar de forma ativa a vida humana, seja por meio da ciência, da energia, da comunicação ou da segurança climática. Ainda há muito a ser revelado nas profundezas que cercam todos os continentes.
Fonte: Nexojornal, Marsemfim e Wikipedia.