Fundo do mar: como a última fronteira da Terra ainda guarda milhares de segredos invisíveis

O maior mistério da Terra não está no espaço, mas sob os nossos pés — ou melhor, sob a água. Mais de 70% do planeta é coberto por oceanos, e menos de 20% dessa área foi devidamente mapeada. A exploração das profundezas envolve pressões letais, escuridão total e descobertas que podem mudar a ciência, a economia e a compreensão sobre a própria Terra. A corrida por conhecimento submarino está apenas começando.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Ciência dia 12/05/2025

O fundo dos oceanos permanece como uma das maiores incógnitas da humanidade. Mesmo após séculos de avanço científico e tecnológico, a maior parte do planeta ainda está submersa em mistério. Essa área inexplorada, que representa mais de dois terços da superfície da Terra, é hoje considerada a última fronteira da exploração terrestre.

Pontos Principais:

  • Mais de 70% da Terra é coberta por oceanos, mas apenas 20% foi mapeado.
  • A pressão e a escuridão tornam o fundo do mar um ambiente hostil à exploração.
  • Projetos como o Seabed 2030 tentam mapear toda a área até o fim da década.
  • O mapeamento pode gerar benefícios científicos, mas também riscos ambientais.

Embora os seres humanos tenham alcançado praticamente todos os continentes, escalado montanhas e cruzado desertos, a vastidão oceânica continua em grande parte desconhecida. Estima-se que mais de 90% das espécies marinhas ainda não tenham sido descritas pela ciência. A dificuldade de acesso, somada às condições extremas das profundezas, contribui para a falta de informações sobre esse ambiente.

Durante muito tempo, acreditou-se que a era da descoberta havia ficado para trás. No entanto, a exploração submarina mostra que ainda há territórios a serem compreendidos. As profundezas dos oceanos não apenas guardam segredos biológicos, mas também dados geográficos, climáticos e históricos que podem transformar a compreensão do planeta como um todo.

As camadas do oceano e seus limites físicos

A partir dos primeiros metros abaixo da superfície, o ambiente marinho já começa a impor desafios. Com apenas 2 metros de profundidade, a maioria das pessoas já não consegue mais tocar o chão. Até os 40 metros, é possível realizar mergulhos recreativos com o uso de cilindros de oxigênio. Esse é o limite imposto por normas de segurança.

Conforme a profundidade aumenta, a luz do sol se torna escassa. Aos 100 metros, ainda é possível enxergar com alguma nitidez. Porém, a partir de 200 metros, a escuridão prevalece. Com 1.000 metros, a zona batipelágica marca o início da região onde não há mais qualquer incidência de luz solar. Essa camada recebe esse nome por derivar da palavra grega bathys, que significa profundo.

A pressão se torna um dos fatores mais limitantes na exploração submarina. A partir de 4.000 metros, entramos na zona abissal, onde vivem espécies adaptadas à completa ausência de luz. Entre 6.000 e 11.000 metros, está a zona hadal, nome inspirado no deus grego do submundo. Esse trecho inclui a Fossa das Marianas, o ponto mais profundo conhecido da Terra, com cerca de 11.000 metros.

Mais de 70% do planeta é coberto por oceanos. Mas adivinha? A maior parte do fundo do mar continua sem mapa e sem visita. É a parte esquecida da Terra - reprodução / canva
Mais de 70% do planeta é coberto por oceanos. Mas adivinha? A maior parte do fundo do mar continua sem mapa e sem visita. É a parte esquecida da Terra – reprodução / canva
  • Mergulho recreativo limitado a 40 metros
  • Zona batipelágica começa aos 1.000 metros
  • Zona abissal entre 4.000 e 6.000 metros
  • Zona hadal vai de 6.000 a 11.000 metros

Exploração humana e avanço tecnológico

A curiosidade pelo ambiente submarino é antiga. O princípio físico do empuxo foi estudado por Arquimedes há milênios, e serviu de base para o desenvolvimento das primeiras estruturas capazes de submergir. No século XVII, Cornelius Drebbel construiu o primeiro modelo funcional de submarino, utilizando um barco fechado com circulação de ar através de tubos.

Com o tempo, os veículos submersíveis evoluíram para atender principalmente a fins militares. As guerras do século XX incentivaram a criação de submarinos movidos a combustão e energia nuclear. Durante a Guerra Fria, a disputa geopolítica também se estendeu para as profundezas oceânicas, promovendo investimentos na exploração dos mares.

O marco histórico da exploração submarina ocorreu em 1960, quando o suíço Jacques Piccard e o americano Don Walsh chegaram à Fossa das Marianas a bordo do submersível Trieste. O feito foi repetido apenas em 2012, por James Cameron, cineasta e entusiasta do mundo subaquático. Nos últimos anos, o submersível Limiting Factor levou 27 pessoas ao ponto mais profundo do planeta.

  • Primeiro submarino funcional criado no século XVII
  • Exploração militar impulsionou avanços tecnológicos
  • Fossa das Marianas alcançada em 1960 e 2012
  • 27 pessoas já chegaram ao ponto mais profundo conhecido

Mapeamento do leito oceânico

Apesar das conquistas, ainda há grandes lacunas no mapeamento dos oceanos. O fundo do mar é extremamente irregular, o que dificulta a criação de mapas precisos. Satélites não conseguem capturar imagens diretas do solo oceânico, mas detectam variações no nível da água que revelam elevações e depressões no fundo.

O método mais eficaz de medição é o sonar. Ao emitir sinais sonoros em direção ao fundo e calcular o tempo de retorno, é possível estimar a profundidade de forma mais precisa. Contudo, esse processo é lento e exige grande quantidade de embarcações. Para acelerar o trabalho, foi criada a missão Seabed 2030, cujo objetivo é mapear todo o fundo do mar até o ano de 2030.

Desde o início do projeto, em 2017, o percentual de área mapeada aumentou de 6% para mais de 20%. A expectativa é alcançar uma resolução de 3 metros por pixel em áreas costeiras e 800 metros nas regiões remotas. Esses dados são fundamentais para compreender melhor o comportamento dos oceanos e sua influência sobre o planeta.

  • Satélites detectam variações de altura da água
  • Sonar é o principal método de mapeamento
  • Missão Seabed 2030 visa cobrir 100% até 2030
  • Mais de 20% já foi mapeado com sucesso

Impactos ambientais e potencial econômico

O avanço do mapeamento também levanta preocupações ambientais. O conhecimento detalhado do fundo do mar pode facilitar a extração de recursos naturais. Entre os principais alvos estão os nódulos polimetálicos, ricos em manganês, ferro, níquel e cobalto, com aplicações em baterias, painéis solares e armamentos.

Saber o que tem lá embaixo ajuda a prever tsunamis, entender o clima e até instalar internet. Mas também abre espaço pra mineração - reprodução / canva
Saber o que tem lá embaixo ajuda a prever tsunamis, entender o clima e até instalar internet. Mas também abre espaço pra mineração – reprodução / canva

O risco de degradação é real. Já foram encontradas sacolas plásticas em áreas de profundidade extrema, o que evidencia a presença humana até nas regiões mais inacessíveis. A extração desregulada pode afetar espécies desconhecidas e ecossistemas inteiros que ainda não foram estudados.

Por outro lado, o conhecimento do leito oceânico também pode ter aplicações positivas. O mapeamento contribui para o rastreamento de destroços de aviões, instalação de cabos de internet, previsão de tsunamis e análise de correntes marítimas. O equilíbrio entre exploração e preservação será determinante para os próximos anos.

  • Mineração oceânica pode impactar ecossistemas
  • Nódulos polimetálicos têm alto valor econômico
  • Sacolas plásticas já foram encontradas nas profundezas
  • Mapeamento ajuda na prevenção de desastres naturais

A última fronteira

O fundo do mar representa mais do que um desafio científico. É a fronteira final da descoberta geográfica no planeta Terra. Em um mundo onde quase tudo parece ter sido catalogado, o oceano profundo oferece uma oportunidade única para ampliar o conhecimento sobre o próprio planeta.

A exploração submarina carrega o mesmo espírito que impulsionou as grandes navegações e a corrida espacial. Ela exige tecnologia, cooperação internacional e uma abordagem cautelosa diante dos riscos. Mais do que isso, exige disposição para encarar o desconhecido.

Conforme novas tecnologias forem desenvolvidas, o fundo do mar deixará de ser um território misterioso e passará a integrar de forma ativa a vida humana, seja por meio da ciência, da energia, da comunicação ou da segurança climática. Ainda há muito a ser revelado nas profundezas que cercam todos os continentes.

Fonte: Nexojornal, Marsemfim e Wikipedia.