O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, gerou forte reação ao comentar de forma fria e crítica o suicídio do pastor Lucas Di Castro, de 35 anos, na Bolívia. Em vídeo publicado nas redes sociais, Macedo afirmou que o religioso “nunca foi homem de Deus” e que “não estava nem aí” para sua morte.
O episódio trouxe à tona um tema sensível e pouco debatido: a saúde mental dos líderes religiosos. Pastores são frequentemente vistos como figuras espiritualmente inabaláveis, mas a realidade envolve longas jornadas, responsabilidades administrativas, apoio a fiéis em situações críticas e pressão por resultados. Esse conjunto de fatores é um terreno fértil para esgotamento emocional e transtornos psicológicos.

O trabalho pastoral muitas vezes inclui atendimento emergencial, visitas a doentes, condução de funerais, gestão de eventos e campanhas sociais, além de tarefas burocráticas diárias. Apesar disso, ainda predomina um tabu sobre buscar tratamento psicológico, agravado por discursos que associam sofrimento mental à falta de fé.
Em 2024, o Ministério do Trabalho atualizou a Norma Regulamentadora nº 1, determinando que empregadores avaliem riscos psicossociais, como metas inatingíveis, assédio moral e insegurança no emprego. Embora igrejas não funcionem como empresas tradicionais, essas condições também estão presentes em estruturas religiosas, especialmente nas mais hierarquizadas.
No caso da IURD, Macedo afirma que os pastores recebem “do bom e do melhor” e que se reúne semanalmente com eles. No entanto, para críticos, esses encontros priorizam cobrança de metas, não a escuta ou apoio emocional. Essa postura, para especialistas, reforça o medo entre pastores de expor fragilidades sem serem vistos como fracos ou incapazes.
A fala do líder religioso ignora o peso de lidar diariamente com problemas alheios e as consequências do desgaste acumulado. Pastores de pequenas igrejas, que acumulam outras atividades para garantir o sustento, também enfrentam riscos, mas contam com menos suporte e recursos. A indiferença pública de um líder do porte de Macedo amplia o estigma e dificulta mudanças culturais no meio religioso.
Ao minimizar a gravidade da situação, o discurso de Macedo contrasta com o princípio bíblico de solidariedade e empatia. Para quem vive a realidade do trabalho pastoral, reconhecer que a fé não substitui cuidados em saúde mental é um passo essencial para prevenir novos casos.
Fonte: Folha e Metropoles.
