De onde vêm os pensamentos? O dilema mente-corpo que a ciência ainda não solucionou

Não começa com uma resposta, mas com uma dúvida: onde, exatamente, a consciência se forma dentro do cérebro? Durante milênios, ciência e filosofia buscaram explicar o elo entre corpo e mente. O dualismo separa ambos; o materialismo une tudo ao cérebro. Ainda assim, ninguém sabe como impulsos elétricos geram sentimentos. A consciência continua sendo um território onde razão, mistério e experiência colidem sem consenso.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 21/06/2025

Introduzir o pensamento humano como um fenômeno físico, mas ainda não compreendido, é mergulhar em um dos maiores enigmas da existência. A ideia de que tudo o que se pensa, sente e percebe nasce de uma massa biológica dentro do crânio é desconcertante. Afinal, os pensamentos não têm forma, não ocupam espaço e não podem ser tocados. Ainda assim, estão diretamente ligados a um órgão físico: o cérebro.

Pontos Principais:

  • O pensamento humano ainda não tem uma localização física definida no cérebro.
  • O dualismo propõe mente e corpo como substâncias separadas e independentes.
  • O monismo considera que a mente é resultado direto da atividade cerebral.
  • O problema difícil da consciência é explicar como impulsos viram experiências subjetivas.
  • Teorias como o panpsiquismo e campos eletromagnéticos tentam oferecer novas respostas.

Essa relação entre corpo e mente não é nova. Desde a Antiguidade, diferentes civilizações e pensadores tentaram compreender a origem dos pensamentos e da consciência. O debate se arrasta há mais de dois mil anos e, mesmo com os avanços da ciência moderna, ainda não há uma resposta definitiva. O corpo humano pode ser dissecado, analisado, conectado a equipamentos e mapeado até em níveis microscópicos. Mas a mente permanece intangível.

O que complica esse cenário é que pensar é uma ação voluntária e pessoal, mas ao mesmo tempo resulta de reações químicas e impulsos elétricos. A dúvida, então, não é apenas onde estão os pensamentos, mas o que são os pensamentos. A tentativa de responder isso divide teorias filosóficas, religiosas e científicas desde tempos antigos até os laboratórios atuais.

Dualismo e o dilema mente-corpo

A teoria do dualismo parte da noção de que mente e corpo são entidades distintas. Essa ideia tem raízes na Grécia Antiga, com Platão, que sugeriu que o mundo sensível seria apenas uma sombra imperfeita do mundo das ideias. Já no período medieval, pensadores como Santo Agostinho adaptaram esse conceito, atribuindo à alma uma origem espiritual e separada do corpo físico.

No século XVII, René Descartes retomou e aprofundou o debate ao propor o dualismo cartesiano. Para ele, a realidade se divide em duas substâncias: a extensa, que ocupa espaço e é composta de matéria, e a pensante, que é responsável pelo pensamento e não possui forma física. Nesse modelo, o corpo estaria sujeito às leis da física, enquanto a mente funcionaria como uma entidade independente, responsável pela razão, pela memória e pela consciência.

O ponto frágil desse modelo é o chamado problema do comércio. Se corpo e mente são substâncias distintas, como elas interagem? Descartes acreditava que a ligação entre ambas acontecia na glândula pineal, localizada no cérebro. Essa explicação, porém, não apresentava mecanismos racionais para a troca de informações entre as substâncias, abrindo espaço para críticas de filósofos e cientistas.

A origem dos pensamentos ainda é uma incógnita. Filósofos e cientistas tentam explicar como uma massa cerebral pode gerar experiências subjetivas e autoconsciência.
A origem dos pensamentos ainda é uma incógnita. Filósofos e cientistas tentam explicar como uma massa cerebral pode gerar experiências subjetivas e autoconsciência.
  • Dualismo defende mente e corpo como substâncias separadas
  • Descartes propôs a glândula pineal como ponto de interação
  • Problema do comércio questiona como ocorre essa comunicação

Materialismo e a unidade mente-cérebro

Com o tempo, a ciência começou a demonstrar que os processos mentais estão ligados à atividade do cérebro. Essa visão materialista entende que a mente não é uma entidade separada, mas sim uma função do corpo físico. A partir do século XIX, com o avanço da fisiologia, surgiram as primeiras evidências de que estímulos elétricos podiam alterar estados mentais.

Em 1875, Richard Caton observou variações de corrente elétrica em cérebros de animais. O salto definitivo veio em 1929, quando Hans Berger desenvolveu o eletroencefalograma (EEG), um método não invasivo para registrar atividades cerebrais. Com esse instrumento, foi possível verificar padrões oscilatórios relacionados a diferentes estados mentais, como vigília, sono, relaxamento e excitação.

Esse avanço permitiu relacionar áreas específicas do cérebro a comportamentos e memórias. A ideia de que diferentes funções mentais emergem de circuitos cerebrais tornou-se dominante. O cérebro, portanto, seria um sistema dinâmico que processa informações, responde a estímulos e armazena experiências, tudo isso por meio de sinais elétricos.

  • Materialismo considera a mente um produto do cérebro
  • EEG mostrou padrões cerebrais ligados à consciência
  • Processos mentais estão associados a circuitos neurais

O desafio da consciência

Mesmo com as descobertas da neurociência, uma questão permanece em aberto: o que é a consciência? Diferente do simples processamento de informações, a consciência envolve saber que se está pensando, sentir emoções e ter experiências subjetivas. Esse é o chamado problema difícil da consciência, conceito popularizado por David Chalmers.

A consciência é mais do que reflexo. Quando alguém afasta a mão do fogo automaticamente, não há consciência envolvida, apenas o chamado arco reflexo. Mas quando essa pessoa percebe que se queimou, sente dor e lembra do ocorrido, a consciência está em ação. A diferença entre saber e saber que sabe é o ponto-chave dessa discussão.

Chalmers propôs que a consciência pode ser uma propriedade fundamental da natureza, o que o levou a sugerir o panpsiquismo — teoria segundo a qual toda a matéria carrega algum grau de consciência. Essa ideia coloca a consciência como uma força tão natural quanto a gravidade, embora não haja evidência experimental que a sustente.

  • Consciência envolve percepção reflexiva e subjetiva
  • Chalmers propôs o panpsiquismo como explicação possível
  • Problema difícil é entender como o físico gera o mental

Correlatos neurais e os qualia

Estudos com neuroimagem e EEG identificaram os chamados correlatos neurais da consciência. Esses são os padrões elétricos e áreas ativadas no cérebro em diferentes estados mentais. Quando uma pessoa lembra de algo, uma parte específica do cérebro entra em atividade. Quando sente medo ou alegria, outras áreas se ativam.

Porém, identificar esses padrões não resolve o enigma. Falta entender como esses impulsos se transformam em experiências pessoais — os chamados qualia. São eles que explicam por que a lembrança de um lugar ou o cheiro do café da manhã têm significados diferentes para cada indivíduo.

Criar um dicionário da consciência, que relacione padrões cerebrais com sensações subjetivas, seria uma maneira de superar esse obstáculo. No entanto, essa tarefa ainda está longe de ser alcançada. A ciência consegue mapear o “onde” e o “quando”, mas ainda não compreende o “como” e o “porquê” da experiência consciente.

Durante séculos, o debate mente-corpo se dividiu entre o dualismo, que separa alma e corpo, e o materialismo, que atribui a mente aos processos físicos do cérebro.
Durante séculos, o debate mente-corpo se dividiu entre o dualismo, que separa alma e corpo, e o materialismo, que atribui a mente aos processos físicos do cérebro.
  • Correlatos neurais ligam atividade cerebral à consciência
  • Qualia representam experiências subjetivas e pessoais
  • A relação entre sinais físicos e sensações não é clara

Teorias atuais e limitações

Diversas propostas tentam explicar a consciência, mas nenhuma é definitiva. Algumas teorias apontam que a consciência seria gerada por campos eletromagnéticos criados pelas ondas cerebrais. Outras sugerem que a experiência consciente surge da integração de diferentes partes do cérebro.

Há também quem defenda que a consciência esteja localizada em regiões específicas, como o córtex posterior. Cada modelo propõe uma abordagem diferente, e a ausência de consenso reflete a complexidade do fenômeno. Mesmo com avanços tecnológicos, a subjetividade continua sendo uma fronteira pouco explorada.

O maior desafio talvez seja justamente esse: traduzir aquilo que só pode ser vivenciado em algo que possa ser medido. A ciência pode estar diante de um limite epistemológico — uma questão que talvez nunca seja totalmente resolvida, ou que exija um novo paradigma para ser compreendida.

  • Teorias variam entre energia, integração e localização específica
  • Não há consenso científico sobre a origem da consciência
  • O tema envolve fronteiras entre ciência, filosofia e percepção

Palavras-chave

origem da consciência humana, dualismo cartesiano e mente, eletroencefalograma e ondas cerebrais, o que é qualia na filosofia, relação entre mente e cérebro, teoria panpsiquismo de chalmers, funcionamento da glândula pineal, problema difícil da consciência, monismo materialista no cérebro, atividade elétrica e estados mentais

Fonte: Eurekalert, Cerebromente e Wikipedia.