De Olímpia a Marsilac: contraste do inverno paulista entre resorts e frio extremo

Enquanto turistas relaxam em piscinas termais em Olímpia, moradores de Marsilac improvisam fogueiras e garrafas pet com água quente para enfrentar noites com temperaturas abaixo de 6 °C. Campos do Jordão também registrou -0,6 °C com sensação térmica de -1,7 °C, em meio a uma frente fria intensa que atinge o estado. A desigualdade climática mostra que, em São Paulo, o inverno pode ser refúgio para uns — e sofrimento para outros.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 1/07/2025

O frio chegou com força ao estado de São Paulo e, com ele, vieram também as imagens que revelam um contraste pungente entre dois Brasis. De um lado, turistas mergulham em piscinas termais sob o céu ameno de Olímpia. Do outro, famílias como a de seu Nenê, em Marsilac, se enrolam em cobertores, improvisam fogueiras e enfrentam o inverno com o que têm. A diferença está não só nos termômetros, mas nas possibilidades de enfrentar as baixas temperaturas.

Pontos Principais:

  • Olímpia atrai turistas com águas termais e clima ameno durante o inverno.
  • Campos do Jordão registrou -0,6 °C com sensação térmica de -1,7 °C e geada.
  • Marsilac enfrenta noites geladas com improvisos como garrafas pet e fogueiras.
  • A desigualdade social define quem vê o frio como lazer e quem sofre com ele.
  • Moradores da periferia denunciam abandono e falta de infraestrutura básica.

Na turística Olímpia, os resorts estão lotados. A cidade é hoje sinônimo de férias em família no inverno. Isso se deve aos famosos parques aquáticos abastecidos por águas termais naturais, como o Thermas dos Laranjais e o Hot Beach, com piscinas que chegam a 38 °C. A estrutura inclui pacotes com alimentação, ingressos e recreação infantil, atraindo quem quer fugir do frio sem sair do Sudeste.

A chegada da frente fria no Sudeste derrubou as temperaturas em várias cidades paulistas. Campos do Jordão registrou -0,6 °C, com geada e sensação térmica de -1,7 °C.
A chegada da frente fria no Sudeste derrubou as temperaturas em várias cidades paulistas. Campos do Jordão registrou -0,6 °C, com geada e sensação térmica de -1,7 °C.

Enquanto isso, em Marsilac — o bairro mais pobre e afastado de São Paulo — a realidade é completamente distinta. Ali, o frio invade os cômodos por frestas e janelas quebradas. Seu Nenê, pai de um recém-nascido, aquece água no fogo de lenha por não ter dinheiro para comprar gás. Ele enche garrafas pet com a água quente e as coloca debaixo das cobertas, tentando aquecer os pés da família.

Na Serra da Mantiqueira, os termômetros também caíram drasticamente. Campos do Jordão bateu o recorde do ano: -0,6 °C com geada e sensação de -1,7 °C. O fenômeno levou turistas a registrar a vegetação coberta de gelo e atraiu atenção nacional. Cidades vizinhas como Santo Antônio do Pinhal, Cunha e São Luiz do Paraitinga também atingiram mínimas históricas. Mas mesmo com o apelo turístico, o frio é real para quem mora nessas áreas.

A frente fria vinda do Sul do país trouxe não só temperaturas negativas, mas também ventos de até 90 km/h. O Inmet emitiu alertas para toda a região, incluindo risco de temporais e declínio acentuado de temperatura. Mesmo com o frio sendo previsível nesta época do ano, os impactos variam drasticamente conforme a localização e a renda.

Enquanto em Olímpia o frio é só um cenário para relaxamento, em Parelheiros e Marsilac ele é motivo de internação hospitalar. Segundo dados da Rede Nossa São Paulo, Marsilac lidera índices negativos como tempo de deslocamento no transporte público e mortalidade por doenças respiratórias. A desigualdade climática se soma à desigualdade social e escancara o abismo entre centro e periferia.

O poder público afirma ter distribuído cobertores e cestas básicas. Mas moradores relatam abandono. Não há asfalto, falta iluminação, as casas são frágeis e a assistência chega tarde — quando chega. Seu Nenê resume: “A gente se vira. O frio vem, a prefeitura não.” A fala dele representa milhares de famílias que transformam a sobrevivência em estratégia diária.

Enquanto isso, turistas aproveitam. Em Olímpia, o clima ameno, as águas termais e os resorts são promovidos como o “refúgio ideal” para quem quer escapar do inverno. Mas para muitos, o inverno não é algo de que se foge: ele é enfrentado, com coragem, lenha, papel nas janelas e roupas usadas.

O mesmo estado, as mesmas datas, o mesmo frio. Mas duas realidades opostas. O inverno paulista, em sua forma mais dura, revela muito mais do que a previsão do tempo. Ele revela o quanto a desigualdade também pode ser medida em graus Celsius.

Fonte: Oantagonista, G1 e Terra.