Crustáceo gigante das profundezas, antes tido como raro, pode ocupar 59% dos oceanos do planeta

Até pouco tempo atrás, acreditava-se que o Alicella gigantea era um animal raro das profundezas. Mas novas pesquisas com dados genéticos e registros visuais mostram que essa espécie pode habitar quase 60% dos oceanos do mundo. Com até 34 cm e resistência a pressões extremas, ele surge agora como um exemplo de como os limites da vida marinha ainda são pouco compreendidos — mesmo com tantos avanços científicos.
Publicado por Maria Eduarda Peres em Onde Assistir dia 30/05/2025

Nos abismos mais remotos do planeta, uma espécie de crustáceo pouco conhecida da maioria das pessoas tem provocado mudanças significativas na forma como os cientistas compreendem a biodiversidade marinha em zonas extremas. Trata-se do Alicella gigantea, um anfípode que habita as profundezas oceânicas e que, por muito tempo, foi considerado raro. Registros isolados e a escassez de estudos genéticos reforçavam essa visão. Porém, novos dados indicam uma realidade completamente diferente.

Pontos Principais:

  • Alicella gigantea pode ocupar até 59% da superfície dos oceanos.
  • Espécie é encontrada entre 3.800 e 8.931 metros de profundidade.
  • Análises genéticas indicam que todos os indivíduos são da mesma espécie.
  • Crustáceo possui ampla distribuição, apesar da baixa densidade populacional.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade da Austrália Ocidental reuniu 195 registros da espécie em 75 pontos distintos nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. As evidências sugerem que o Alicella gigantea pode viver em até 59% dos oceanos do mundo. O levantamento incluiu filmagens e coletas em ambientes com profundidade superior a 3.800 metros, com registros que chegam a quase 9 mil metros.

O animal em questão alcança até 34 centímetros de comprimento, o que o torna o maior anfípode conhecido. Sua fisiologia é adaptada para sobreviver em regiões inóspitas como a Zona Hadal, que começa a partir de 6 mil metros de profundidade. Essas características, somadas à nova distribuição geográfica mapeada, colocam a espécie em uma posição relevante para a pesquisa sobre adaptação biológica em ambientes extremos.

Cientistas identificaram que o crustáceo Alicella gigantea, antes considerado raro, pode habitar quase 60% da superfície oceânica do planeta, mudando conceitos da biologia marinha.
Cientistas identificaram que o crustáceo Alicella gigantea, antes considerado raro, pode habitar quase 60% da superfície oceânica do planeta, mudando conceitos da biologia marinha.

Distribuição global e metodologia da pesquisa

Os pesquisadores utilizaram sistemas subaquáticos autônomos com câmeras HD e sensores para identificar os locais habitados pelo crustáceo. A maior concentração de registros foi observada no Oceano Pacífico, com 67 pontos identificados. As áreas potenciais de habitat foram estimadas em 104,6 milhões de km² no Pacífico, 47,7 milhões de km² no Atlântico e 39,6 milhões de km² no Índico.

O estudo mostrou que áreas como o Oceano Ártico e o Mar Mediterrâneo não oferecem condições ideais de profundidade para o Alicella gigantea. Isso explica a ausência de registros nessas regiões, embora não descarte a possibilidade de presença em áreas menos estudadas. A pesquisa reforça a hipótese de que a percepção de raridade estava relacionada às limitações tecnológicas e à baixa densidade populacional.

Para garantir a precisão dos dados, a equipe também investigou a composição genética dos espécimes coletados. Trinta e um indivíduos tiveram três regiões genéticas sequenciadas: 16S, COI e 28S. A análise comparativa com bancos de dados genômicos indicou que todos os exemplares pertencem à mesma espécie, com baixa variabilidade genética.

Origem evolutiva e dispersão oceânica

A análise filogenética apontou que o Alicella gigantea compartilha características comuns com outras espécies da ordem dos anfípodes, grupo que também inclui camarões e lagostas. Esses crustáceos são conhecidos por desempenharem papel importante na reciclagem de matéria orgânica, o que inclui restos de animais mortos e vegetação marinha nas profundezas.

Eventos geológicos e variações climáticas ocorridos durante o período Cenozóico, há menos de 66 milhões de anos, podem ter facilitado a expansão dessa espécie. A abertura de passagens oceânicas profundas e as mudanças nos padrões de circulação das águas criaram caminhos naturais para a dispersão dos indivíduos. Isso teria resultado na ampla distribuição observada atualmente.

Apesar da grande área de ocorrência, o Alicella gigantea possui densidade populacional relativamente baixa. Essa condição contribuiu para que a espécie fosse classificada como rara durante boa parte do século XX. As recentes observações de aglomerações entre 6.500 e 6.700 metros de profundidade sugerem, no entanto, que sua presença é mais comum do que se supunha.

Limitações genômicas e desafios futuros

Análises genéticas de 31 indivíduos mostraram que todos pertencem à mesma espécie, com variações mínimas, indicando uma única população com ampla dispersão geográfica.
Análises genéticas de 31 indivíduos mostraram que todos pertencem à mesma espécie, com variações mínimas, indicando uma única população com ampla dispersão geográfica.

Um dos principais entraves para o avanço do conhecimento sobre o Alicella gigantea é a falta de dados genômicos completos. Atualmente, apenas três genomas mitocondriais e três transcriptomas de anfípodes hadais foram publicados. O tamanho do genoma dessa espécie varia entre 4 e 34 bilhões de pares de base, o que impõe desafios técnicos significativos.

A dificuldade em preservar o DNA após a coleta também limita as análises. Em ambientes de superfície, o material genético sofre degradação rápida, tornando inviável grande parte dos estudos em larga escala. Apesar disso, o avanço de técnicas de sequenciamento e a melhoria dos equipamentos de coleta têm ampliado as possibilidades de pesquisa.

Para superar essas barreiras, as expedições submarinas futuras devem incorporar tecnologias mais sofisticadas e protocolos específicos para o manuseio de organismos de grandes profundidades. A expectativa é que, nos próximos anos, novos dados contribuam para preencher as lacunas sobre a biologia e a evolução das espécies que vivem sob condições extremas.

Adaptação fisiológica às profundezas

O Alicella gigantea apresenta um corpo alongado e sem carapaça rígida, o que facilita a adaptação à alta pressão das camadas profundas dos oceanos. A ausência de estruturas calcificadas reduz o risco de colapso por compressão, permitindo a sobrevivência em ambientes com até 8.931 metros de profundidade.

Esses animais atuam como recicladores naturais, contribuindo para o equilíbrio do ecossistema marinho profundo. Alimentam-se de resíduos orgânicos e carcaças de animais, funcionando como parte do sistema de decomposição natural das zonas abissais. Isso os torna essenciais para o ciclo de nutrientes nas regiões menos acessíveis do planeta.

Apesar da importância ecológica, muito ainda se desconhece sobre seus hábitos reprodutivos, expectativa de vida e interações com outras espécies. Com a ampliação das áreas mapeadas e o uso contínuo de monitoramento remoto, os cientistas esperam desvendar mais detalhes sobre o comportamento da espécie.

Conclusão científica

O estudo liderado por cientistas da Universidade da Austrália Ocidental propõe uma reavaliação sobre a presença e o status de conservação do Alicella gigantea. A espécie, antes classificada como rara, passa a ser considerada amplamente distribuída, embora com baixa densidade.

Esse reposicionamento reforça a necessidade de novos parâmetros de análise para espécies das zonas profundas. Com a integração de dados genéticos, geográficos e ambientais, torna-se possível construir uma visão mais realista sobre a biodiversidade marinha global. A presença consistente do crustáceo em três grandes oceanos serve como exemplo de como as descobertas científicas podem alterar conceitos consolidados.

O conhecimento sobre espécies como o Alicella gigantea é essencial não apenas para a biologia, mas também para políticas de conservação e gestão dos recursos marinhos. Em um momento de intensificação das mudanças climáticas e da exploração dos oceanos, compreender os limites e as capacidades da vida marinha profunda é uma tarefa urgente.

Fonte: Revistagalileu, Super, Revistagalileu e Exame.