Quando o tema é história do Brasil, o canibalismo costuma aparecer cedo nas aulas. A abordagem normalmente surge junto às narrativas do período colonial, mais precisamente nos relatos de Hans Staden, um europeu que testemunhou os costumes indígenas do século XVI. Suas descrições ganharam destaque por ilustrar práticas consideradas incomuns ao público europeu, gerando debates que ecoam até hoje sobre o papel do canibalismo nas sociedades humanas.
Pontos Principais:
Além do contexto histórico brasileiro, o consumo de carne humana atravessa culturas e épocas. Do ponto de vista antropológico, a prática reaparece em diferentes momentos da história mundial, variando de usos cerimoniais a situações extremas de sobrevivência. A recorrência da temática levanta questionamentos não apenas sobre seus motivos, mas sobre seus impactos biológicos e sociais.
Compreender o que leva um ser humano a praticar o canibalismo envolve mais do que uma análise de costumes ou rituais. Existe uma dimensão biológica e evolutiva envolvida, que também ajuda a entender por que, apesar de historicamente presente em algumas culturas, o canibalismo é rejeitado pela maioria das sociedades e quase inexistente como prática instintiva entre seres humanos.
O termo canibalismo é usado para descrever o ato de um indivíduo consumir outro da mesma espécie. No caso dos seres humanos, isso significa um ser humano alimentando-se de outro ser humano. Já a antropofagia refere-se especificamente ao consumo ritualístico de carne humana, geralmente em contextos religiosos ou culturais determinados.
A distinção principal está no objetivo. O canibalismo, na definição mais ampla, pode ocorrer por instinto, necessidade ou sobrevivência, enquanto a antropofagia está ligada a uma simbologia específica, como absorção de força, poder ou sabedoria. No Brasil, os registros históricos que envolvem os Tupinambás, por exemplo, relacionam-se diretamente com práticas antropofágicas.
Na biologia, é comum observar comportamentos canibais em diversas espécies, geralmente associados à seleção natural. Em ninhadas com indivíduos doentes ou imaturos, o canibalismo pode ser utilizado para preservar recursos e aumentar as chances de sobrevivência dos mais aptos. Entre humanos, porém, essa lógica não se aplica de forma natural.
A repulsa ao canibalismo é quase universal. Mesmo em sociedades que toleram a antropofagia em contextos ritualísticos, a ingestão de carne humana fora desses rituais é considerada antinatural. Isso pode ter origem em mecanismos biológicos desenvolvidos ao longo da evolução da espécie humana.
O consumo de carne da própria espécie representa riscos significativos à saúde. Doenças transmissíveis entre humanos podem se espalhar com mais facilidade através dessa prática. Há registros de parasitas, bactérias e vírus que conseguem infectar humanos especificamente nesse tipo de situação.
Em termos evolutivos, populações que desenvolveram repulsa ao canibalismo teriam maior chance de sobreviver. Indivíduos que desconsideravam esse risco tendiam a contrair infecções fatais, o que reduzia sua sobrevivência e reprodução. Dessa forma, o comportamento de evitar o canibalismo teria sido reforçado ao longo de gerações.

Embora não seja uma prática comum, o canibalismo já foi registrado em situações extremas. O caso mais conhecido é o acidente aéreo ocorrido nos Andes em 1972. Uma aeronave que transportava 45 pessoas caiu em uma região remota e nevada. Sem comida ou fonte de calor, os sobreviventes utilizaram os corpos dos mortos para se alimentar.
Esse tipo de relato evidencia que o canibalismo pode surgir como recurso final diante da possibilidade concreta de morte por inanição. Trata-se, nesse contexto, de uma resposta à necessidade imediata de sobrevivência e não de um costume cultural.
Fora de situações extremas, não há registro consistente de sociedades modernas que mantenham o canibalismo como prática aceita ou legalizada. A rejeição está consolidada tanto nas normas sociais quanto nas legislações contemporâneas, que tratam o ato como crime, independentemente das circunstâncias simbólicas.
O corpo humano carrega organismos que, ao serem consumidos por outro humano, podem desencadear doenças que não afetariam outras espécies. Entre os riscos associados estão os prions, proteínas infecciosas que provocam doenças neurológicas degenerativas, como a doença de Kuru, registrada entre povos que praticavam o canibalismo em Papua-Nova Guiné.
Além dos prions, há riscos de contaminações bacterianas e virais. A carne humana não processada carrega agentes que, mesmo em pequenas quantidades, podem causar infecções graves. O contato com sangue e tecidos internos amplia essas possibilidades.
Esses riscos explicam por que o canibalismo também é raro entre outros vertebrados. A preservação da espécie passa pela eliminação de comportamentos que possam comprometer a saúde do grupo. Por isso, mesmo em situações de escassez alimentar, os animais tendem a evitar consumir indivíduos da mesma espécie, a menos que a estrutura social ou fisiológica os leve a isso.

O canibalismo é um tema que atravessa o imaginário coletivo, ora ligado a imagens históricas, ora despertado por casos extremos de sobrevivência. Apesar de sua recorrência pontual, ele se mantém à margem da norma humana por razões que vão além da moral: envolvem riscos de saúde, pressão evolutiva e rejeição instintiva.
A diferença entre canibalismo e antropofagia ajuda a compreender como culturas podem absorver simbolicamente a prática sem adotá-la como hábito alimentar. O caso dos Andes serve como referência de que, em situações de extremo, limites éticos e biológicos podem ser tensionados.
Na prática, a ausência de canibalismo entre seres humanos é menos uma decisão consciente e mais um resultado da adaptação da espécie ao seu próprio equilíbrio sanitário e social.