O Brasil reforçou em julho de 2025 uma das maiores reivindicações territoriais marítimas já feitas pelo país, ao apresentar à Organização das Nações Unidas um novo dossiê técnico sobre a Elevação do Rio Grande. Trata-se de uma imensa formação submersa localizada no Atlântico Sul, cerca de 1.200 quilômetros distante da costa do Rio Grande do Sul, que já vinha sendo alvo de pleito desde 2018. O objetivo é que a área seja oficialmente incorporada à plataforma continental brasileira, ampliando a zona econômica exclusiva e o direito de exploração mineral.
Pontos Principais:
A estrutura geológica é singular em escala e características. Com dimensões superiores às da Islândia, a Elevação do Rio Grande se ergue desde o fundo oceânico, a 5.000 metros de profundidade, e alcança um topo situado entre 700 e 2.000 metros abaixo do nível do mar. Desde 2015, uma série de expedições científicas tem buscado comprovar sua natureza como fragmento da crosta continental, elemento fundamental para embasar a argumentação jurídica junto à ONU.

O pedido não é apenas estratégico por questões territoriais. A Elevação do Rio Grande contém reservas importantes de minerais críticos para as cadeias produtivas de tecnologia e energia. Elementos como cobalto, manganês, níquel, telúrio e terras raras são empregados em baterias, turbinas eólicas, painéis solares e eletrônicos, todos com demanda crescente no mercado internacional. Por isso, a reivindicação brasileira também envolve debates sobre impacto ambiental e monitoramento da região.
Pesquisadores brasileiros lideram estudos para caracterizar a Elevação do Rio Grande como uma extensão geológica do continente. A equipe, formada por cientistas da Universidade de São Paulo em colaboração com instituições do Reino Unido, Alemanha e Japão, vem coletando amostras e mapeando a região para demonstrar semelhanças com as formações rochosas do território nacional.
Os estudos têm revelado que as rochas da Elevação apresentam idades entre 540 milhões e 2 bilhões de anos, o que as coloca no mesmo período das grandes formações continentais. Há indícios de que a estrutura já foi uma ilha emersa, com registros de rochas vulcânicas de 45 a 47 milhões de anos e sedimentos que indicam exposição ao ar. Isso reforça a tese de que a elevação é um bloco de crosta continental que permaneceu submerso após a separação entre América do Sul e África.
O professor Luigi Jovane, especialista em geofísica marinha e paleomagnetismo, coordena as expedições e aponta que a Elevação do Rio Grande apresenta feições complexas, incluindo montes submarinos, platôs, cânions e um extenso rift tectônico. A USP também desenvolve novas tecnologias para ampliar o mapeamento e prevê novas missões científicas em parceria com a Marinha para aprofundar o conhecimento sobre a área.

O reconhecimento internacional da Elevação do Rio Grande como parte da plataforma continental brasileira abriria caminho para o país exercer direitos exclusivos de exploração econômica sobre seus recursos minerais. Isso garantiria acesso a materiais essenciais para as transições energética e tecnológica globais, fortalecendo a posição brasileira no cenário geopolítico.
Os minerais presentes na Elevação são considerados estratégicos por sua aplicação em indústrias de alta tecnologia e por estarem concentrados em poucos países no mundo. Terras raras, por exemplo, são dominadas pela produção chinesa, o que torna novas fontes de abastecimento um interesse econômico relevante.
A solicitação junto à ONU está amparada na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que permite a extensão da plataforma continental além das 200 milhas náuticas caso seja comprovada a continuidade geológica com o território do país.
Embora a possibilidade de exploração mineral seja considerada estratégica, especialistas apontam riscos significativos para os ecossistemas marinhos. A atividade de mineração em mar profundo pode provocar alterações químicas na água, como mudanças no pH, níveis de oxigenação e dispersão de partículas contaminantes. O impacto sobre a fauna, especialmente os organismos fixos às crostas minerais, ainda é pouco conhecido.
As pesquisas ambientais são fundamentais para mitigar danos e estabelecer protocolos de exploração responsáveis. A USP trabalha em conjunto com órgãos governamentais para desenvolver sensores e tecnologias que permitam monitorar em tempo real as condições da água e a biodiversidade da região. Um novo cruzeiro científico está programado para o fim de 2025 ou início de 2026 para aprofundar as análises.
A ampliação da soberania brasileira sobre a Elevação do Rio Grande também traria responsabilidades ambientais adicionais no Atlântico Sul, exigindo um equilíbrio entre exploração econômica e conservação dos ecossistemas.
O pedido brasileiro de reconhecimento da Elevação do Rio Grande como extensão da plataforma continental é sustentado por anos de pesquisas científicas e por seu potencial econômico e geopolítico. A área concentra recursos minerais críticos para setores estratégicos e reforça a influência do país na região. Ao mesmo tempo, levanta a necessidade de políticas ambientais eficazes para lidar com os riscos inerentes à mineração em mar profundo.
O avanço do processo depende da análise da Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU, que avaliará as evidências técnicas apresentadas pelo Brasil. Até lá, as investigações científicas prosseguem para oferecer mais dados sobre a origem, a biodiversidade e os impactos potenciais dessa imensa estrutura submersa.
Fonte: UOL, Exame, Aventurasnahistoria e Oglobo.