No século passado, cerca de dez bilhões de pessoas nasceram em todo o mundo. Metade dessas pessoas já não está mais viva, vítimas de inúmeras causas naturais e humanas. Entre as doenças, a varíola destacou-se como a mais letal, responsável por mais de 300 milhões de mortes só no século XX.
Pontos Principais:
A doença atingia faraós, reis, camponeses e povos indígenas com a mesma intensidade, espalhando febre alta, vômitos, bolhas purulentas e morte em um a cada três casos. Mesmo os que sobreviviam carregavam sequelas graves como cegueira e desfiguração. Povos indígenas americanos foram quase dizimados após o contato com colonizadores, sem imunidade prévia à doença.

Apesar do impacto, a humanidade encontrou um caminho para neutralizar a ameaça. Observações empíricas evoluíram para técnicas que mais tarde deram origem às vacinas, culminando em um esforço global que erradicou a varíola do planeta em 1979, segundo a Organização Mundial da Saúde.
A varíola é considerada a doença infecciosa mais mortal já registrada. No século XX, além das mortes provocadas por câncer, doenças cardíacas e cardiovasculares, ela isoladamente matou centenas de milhões de pessoas. A doença não poupava camadas sociais e espalhava-se rapidamente por regiões sem imunidade coletiva.
Entre os indígenas das Américas, estima-se que até 90% das populações originais sucumbiram a doenças levadas por exploradores europeus, entre elas a varíola. Impérios inteiros desmoronaram diante das epidemias. Não havia tratamento conhecido, apenas técnicas arriscadas como a variolação, praticada desde tempos antigos na China.
A variolação consistia em aplicar crostas secas de feridas em pessoas saudáveis, transmitindo deliberadamente a doença de forma leve para criar imunidade. Apesar de funcionar em parte dos casos, a prática espalhava novos focos da epidemia e tinha risco considerável.
No século XVIII, o médico britânico Edward Jenner formulou uma alternativa menos perigosa. Observando que trabalhadores infectados com varíola bovina não adoeciam com a varíola humana, ele testou inoculando um menino com o vírus bovino antes de expô-lo ao vírus humano.
O menino não adoeceu, confirmando a hipótese de que a versão bovina criava imunidade cruzada. Essa experiência originou o conceito de vacina, palavra derivada do latim vacca. Jenner repetiu a experiência em outras pessoas, incluindo seu filho, demonstrando que a imunização era possível sem contrair a doença em sua forma grave.
Décadas depois, a ciência comprovou que o sistema imunológico cria uma memória para reconhecer patógenos previamente combatidos. Vacinas modernas utilizam pedaços inofensivos de vírus, versões atenuadas ou micro-organismos mortos para estimular essa resposta sem adoecer o indivíduo.
O sistema imune funciona como um mecanismo organizado que identifica, combate e registra a presença de agentes invasores. Células especializadas patrulham o corpo humano, detectam invasores e desencadeiam uma resposta para eliminar a ameaça.
Quando ocorre uma invasão, essas células acionam um processo de reconhecimento, recrutam reforços e produzem defesas específicas para aquele invasor. Esse processo também deixa registrada a informação para futuras invasões semelhantes, permitindo uma resposta mais rápida e eficiente.
As vacinas aproveitam essa característica natural para treinar o sistema imune com segurança, evitando que a doença chegue a se manifestar de forma perigosa. Isso possibilitou não só a redução drástica de casos graves como também, no caso da varíola, a erradicação completa.
No início do século XX, campanhas de vacinação obrigatória na Europa reduziram drasticamente a incidência da doença em diversos países. Na década de 1950, a Organização Pan-Americana de Saúde coordenou um esforço para eliminar a varíola de quase todos os países das Américas, com exceção de regiões com populações de difícil acesso, como no Brasil e na Colômbia.
Em 1958, o ministro soviético Viktor Zhdanov propôs na ONU um plano de erradicação global. Equipes de saúde foram enviadas aos locais mais remotos, criando barreiras imunológicas ao redor de focos ativos, isolando e imunizando populações inteiras.
O último caso mortal da doença foi registrado na Somália, em outubro de 1977. Em dezembro de 1979, a Organização Mundial da Saúde anunciou oficialmente que a varíola havia sido erradicada do mundo. Desde então, nenhum caso natural da doença foi identificado.
A erradicação da varíola demonstrou a capacidade das campanhas de vacinação em transformar a saúde pública mundial. Antes das vacinas, as doenças infecciosas eram as principais causas de morte no planeta.
Hoje, doenças crônicas como câncer e problemas cardíacos ocupam o topo das preocupações médicas por causa da redução significativa de doenças transmissíveis. A vacinação permitiu essa mudança, salvando centenas de milhões de vidas ao longo do século XX.
O exemplo da varíola permanece como referência para programas de combate a outras doenças transmissíveis e para a importância de manter altas taxas de vacinação na população.