Durante a manhã de 30 de outubro de 1961, um bombardeiro soviético sobrevoava um arquipélago no norte da então União Soviética. A bordo, estava um dispositivo que transformaria aquele voo em um dos marcos mais expressivos da era nuclear. Às 11h32, a bomba mais poderosa já criada por seres humanos foi detonada. O evento foi resultado de uma trajetória que começou décadas antes, com o desenvolvimento da fissão nuclear.
Pontos Principais:
A história da energia nuclear não começou com a intenção de criar armas. No fim do século 19, cientistas já estudavam a possibilidade de liberar energia a partir da divisão de núcleos atômicos. Essa reação, conhecida como fissão, revelou-se uma forma eficiente de conversão de massa em energia. A descoberta se tornou conhecida por meio de experimentos com elementos como o urânio, cuja instabilidade ao receber nêutrons desencadeava a liberação de grandes quantidades de energia.
Essa energia, quando multiplicada pelos bilhões de átomos presentes em uma pequena quantidade de material, se tornou um recurso de interesse global. Mas o potencial energético logo foi redirecionado. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a ciência foi absorvida pelos interesses militares. A promessa de abastecimento energético cedeu lugar ao desenvolvimento de armamentos.
Em 1938, o físico Otto Hahn realizou o primeiro experimento bem-sucedido de fissão nuclear. Poucos meses depois, a Alemanha invadiu a Polônia e deu início à Segunda Guerra Mundial. Em resposta à ameaça de que o regime nazista pudesse desenvolver bombas nucleares, cientistas como Leo Szilard e Albert Einstein alertaram o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt. Esse alerta motivou a criação do Projeto Manhattan.
O programa americano, iniciado em 1942, concentrou esforços no desenvolvimento de armas nucleares. Em julho de 1945, o primeiro teste foi realizado com sucesso. Menos de um mês depois, as cidades de Hiroshima e Nagasaki foram atingidas. As duas bombas resultaram em dezenas de milhares de mortes imediatas e o colapso militar do Japão, encerrando oficialmente a guerra no Pacífico.

A União Soviética acompanhava o avanço nuclear do Ocidente com preocupação. Em 1949, testou sua própria bomba de fissão. O início da Guerra Fria ampliou a corrida armamentista. Ao longo da década de 1950 e início dos anos 1960, os testes nucleares se intensificaram, com os dois blocos realizando experimentos sucessivos. Em 1962, o número de testes nucleares chegou a 178 em apenas um ano.
As primeiras bombas nucleares operavam com base na fissão nuclear. Nesse processo, o núcleo de um átomo pesado se divide em dois núcleos menores, liberando energia e novos nêutrons que mantêm a reação. As bombas lançadas sobre o Japão utilizavam esse princípio.
Com o avanço tecnológico, surgiu uma nova classe de armamento: as bombas termonucleares, também conhecidas como bombas de hidrogênio ou bombas H. Essas armas não apenas dividem átomos, mas fundem núcleos de hidrogênio para formar núcleos mais pesados, liberando ainda mais energia.
Para iniciar a fusão nuclear, é necessário alcançar temperaturas da ordem de 15 milhões de graus Celsius. Esse cenário só pode ser reproduzido artificialmente com o uso de uma explosão inicial baseada na fissão. Assim, as bombas termonucleares operam em duas etapas: a fissão inicial cria a temperatura necessária para a fusão subsequente.
O desenvolvimento da bomba Tsar foi uma resposta da União Soviética à intensificação da corrida armamentista. A bomba possuía uma estrutura de três estágios e potência estimada de 50 megatons. Essa magnitude é 1.570 vezes superior à soma das explosões de Hiroshima e Nagasaki.
Para reduzir os impactos do teste, a bomba foi projetada para liberar “apenas” metade de seu potencial destrutivo original. Mesmo assim, a explosão foi suficiente para gerar um abalo sísmico detectado após dar três voltas ao redor do planeta. A nuvem gerada pela explosão atingiu 64 km de altura, ultrapassando a estratosfera.
A tripulação do bombardeiro que transportava a bomba teve 50% de chance de sobrevivência estimada. A aeronave foi revestida com tinta refletiva para minimizar o impacto térmico da explosão. Ainda assim, habitantes a 270 km do local relataram sensação de calor. Janelas foram quebradas a 900 km de distância.
As explosões nucleares deixaram marcas permanentes na atmosfera e no corpo humano. Isótopos radioativos liberados nesses testes foram dispersos globalmente e absorvidos por organismos vivos. Até hoje, traços desses elementos estão presentes nos tecidos de pessoas nascidas décadas depois dos testes.
A exposição à radiação, mesmo em níveis residuais, tem implicações em saúde pública. Estudos associam o acúmulo desses isótopos a riscos genéticos e possíveis alterações em células humanas. A radiação ionizante pode afetar diretamente o DNA, alterando sua estrutura e aumentando a probabilidade de doenças.
A presença contínua desses elementos em diversas regiões do mundo é resultado do grande número de testes realizados. Desde 1945, foram mais de dois mil testes nucleares documentados. Muitos deles ocorreram em regiões isoladas, mas os ventos e correntes atmosféricas espalharam os resíduos radioativos globalmente.

A energia utilizada nas bombas pode ser reaproveitada para fins civis. A fusão nuclear, por exemplo, representa uma das promessas mais avançadas de produção energética limpa e eficiente. Em teoria, um pequeno volume de hidrogênio pode gerar grandes quantidades de energia sem os resíduos permanentes da fissão.
Projetos experimentais ao redor do mundo buscam viabilizar reatores de fusão. O desafio é manter as temperaturas extremas necessárias por tempo suficiente para gerar energia de forma estável. Caso essa meta seja atingida, seria possível abastecer cidades inteiras com menos impacto ambiental.
A transição do uso militar para o uso civil da tecnologia nuclear depende de decisões políticas e investimentos em pesquisa. A história da bomba Tsar serve como um marco da destruição possível, mas também como referência do potencial contido nos núcleos atômicos.
Fonte: Realidadesimulada, Wikipedia e Www3.